A virtude e a tentação

A Vida, quantos mistérios tem a vida, e quantos incontáveis eventos temos de nos deparar e resolver para que possamos realmente resgatar estes valores íntimos que se encontram aprisionados em diferentes incompreensões, diferentes delitos em nosso interior.

Todos nós certamente apreciamos a calmaria, a tranquilidade, em seu sentido mais ameno e suave que proporciona a vida, mas no fundo estes momentos são os mais inúteis no sentido de modificações e avanços internos, pois estes processos tranquilos não permitem com que logremos desenvolver absolutamente nada, já que por não nos exigir nada, nada ganhamos.

A Grande diferença que existe entre aquilo que chamamos de Vida, que é esta vida comum e corrente que vivemos e aquilo que chamamos Caminho, no sentido de uma Obra Espiritual; é que na Vida nós não fazemos compreensão dos eventos, nem nos opomos ao que é errado, delituoso. Já quando nos integramos com esta fração Divina que em nosso interior levamos e passamos a dar a cada evento sua justa solução, então iniciamos a trilhar o caminho e passamos a ser tentados para que cometamos erros e da negação ao erro, surge, cresce, desenvolve-se a virtude.

Dificuldades, são coisas que vem de duas maneiras, uma como resultado de nossos delitos, quando vivemos a vida; e outra quando trilhamos o caminho e estas dificuldades são exatamente a oposição a esta integração espiritual, as tentações que buscam nos testar naquilo que estamos nos propondo realizar, e ao mesmo tempo vem para nos afastar disto, se falhamos. Ou claro, por outro lado, nos dá o aval concreto para que encarnemos e manifestemos estas preciosas joias que vamos recebendo do Espírito ao passar por estas provações.

Nem todas as pessoas trilham este caminho pela primeira vez, e raros aqueles que realmente se integram com a Obra, o fazem desde o começo. O que queremos dizer, é que nem sempre a vida nos parece justa se tentamos comparar o que vive um e o que vive outro, mas no fundo, as dificuldades, sejam humanas, sejam esotéricas, são o resultado destas particularidades de cada um, seja de seus erros, seja daquilo que o Íntimo de cada um precisa vivenciar e submete sua fração humana para que encarne as diferentes partes do Ser, ou mesmo se equipare mais uma vez a ele, já que quando nascemos não nascemos prontos, no sentido daquilo que já fizemos, senão que recapitulamos diversos processos ao longo da existência até estarmos novamente prontos para seguir em frente, dar continuidade aquilo que começamos em outras épocas, outras eras.

A Natureza constantemente recapitula-se em si mesma, o próprio período fetal que vivemos cada vez que regressamos ao reino humano, é no fundo uma vivência muito realista disto que falamos, afinal nos recorda a própria terra o ventre da mãe, e naturalmente nos desenvolvemos, e mesmo fora deste útero, já não nascemos falantes e atuantes, senão que recapitulamos certos processos e nos adaptamos a realidade atual da época e formamos os veículos necessários a esta expressão a este momento, como sabemos é a Personalidade neste caso, que serve de mediador com a localidade e a época que vivemos. Quando reencontramos o caminho espiritual, de certa maneira ocorre este mesmo processo, somente que esotérico, pois precisamos nos adaptar as palavras, ao método atual, seja para aprender, seja para poder ensinar. As próprias iniciações precisam ser revividas ainda que rapidamente, para que tenhamos mais uma vez estes valores encarnados e manifestos para as realizações que nos corresponde realizar.

Não há como existir virtude, sem tentação, nem tentação sem que haja um potencial, uma semente de virtude. Ninguém que não tenha condições de trilhar o caminho espiritual, pode ser tentado, pois seria um despropósito, uma inutilidade. Também a tentação são as trevas, a noite, e o caos, é o mesmo ventre, de onde se forjam e emanam as virtudes.

Em nossa vida, quando nos propomos a esta superação de nós mesmos, inevitavelmente surgem muitas escolhas delicadas, mesmo extremas, aonde somos tomados ao mesmo tempo por este impulso divino, e ainda assim tentados a outras realizações contrárias a isto e é aonde nos definimos pela Luz ou pelas Trevas, pelo ascenso ou pelo descenso. E ainda que o objetivo seja sempre superar estes obstáculos, inevitavelmente há processos aonde mesmo falhar é inevitável, já que é por vezes a forma de provar o orgulho, ou mesmo a continuidade de propósitos do caminhante, e é aonde muitos não entendem e abandonam o caminho precocemente.

Muitas pessoas reclamam de não ter encontrado a Luz, ou de não terem encarnados os dons e poderes espirituais que entendem lhes corresponde e no fundo temos de afirmar que quanto maior sejam estas trevas, se é que o iniciado está realmente trabalhando e verdadeiramente vencendo estas tentações, maior é sempre a luz, uma vez que teve de passar por isto em trevas. É claro que isto não é como ocorre com todos, porque cada um tem uma natureza distinta, vive processos distintos e isto faz com que de acordo com as missões que tenha, das realizações que lhe corresponda, venha tendo uma luz maior que os demais, uma compreensão e uma visão mais profunda e abrangente, como é natural de ser, já que não trabalha apenas por si mesmo, mas por guiar e ajudar outros em seu trabalho.

Há muitos princípios realmente Divinos hoje encerrados em formas humanas, prontos para desempenhar terríveis papéis em tempos tão difíceis como são estes que vivemos, e inevitavelmente passam por grandes sofrimentos e grandes amarguras e porque não dizer tragédias em suas vidas, exatamente para que consigam lograr vivenciar uma pequena fração de tudo que já viveram ao longo das eras e reincorporar mais uma vez estes Divinos Valores e Dons, os quais tem por direito fazer manifesto por meio de sua Alma, mas que depende da sábia vivência destes distintos processos que se desencadeiam em sua vida.

Anjos e Demônios

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Santo Agostinho, certa vez, escreveu sobre quando foi para o deserto fazer um retiro de silêncio e foi acometido por todo tipo de visão – tanto demônios quanto anjos.

Disse que em sua solidão, algumas vezes encontrava demônios que pareciam anjos, e outras vezes encontrava anjos que pareciam demônios.

Quando lhe perguntaram como ele sabia a diferença, o Santo respondeu que só se pode dizer quem é quem com base na sensação que se tem depois que a criatura foi embora.

Se você ficar arrasado, disse ele, então foi um demônio que veio visitá-lo. Se você se sentir leve e feliz, então foi um anjo.

A ilusão mental do Status Social

prometeu_acorrentado1É triste a realidade atual do ser humano, acorrentado a dura rocha da existência humana. Somos escravos do desejo de ter fama, de ter poder, status, admiração, adoração, aceitação, entre tantos outros adjetivos que podemos citar aqui… É interessante perceber como fantasiamos nossa realidade social e profissional, nos orgulhando da nossa posição, do nosso cargo.

Quando nos encontramos com alguém, não perdemos a oportunidade de falar do nosso trabalho, das nossas atribuições, do nosso cargo. Temos uma necessidade crônica de mostrar a todos que estão ao nosso redor que estamos bem, de projetar a todos eles as nossas fantasias para o mundo.

De acordo com os nossos conceitos, e os da sociedade, uma pessoa que ocupa um cargo de destaque, que trabalha em empresa conceituada, mora em um bairro nobre, é uma pessoa de destaque, alguém importante e admirado. Inseridos na ilusão do mundo e cegos pelo desejo de possuir, não enxergamos a realidade.

Que, verdade seja dita, nem queremos vê-la. Somos todos escravos dos conceitos impetrados e enraizados da sociedade. Corremos atrás desses falsos brilhos sem mesmo nos perguntar por quê. Muito longe da fria realidade que nos cerca, conquistamos ouro de tolo, mas com a nítida sensação de termos adquirido ouro maciço.

Tudo e todos ao nosso redor nos dizem a todo momento e a todo instante: estude nas melhores faculdades, seja importante, seja um profissional de sucesso, influente, famoso; mostre que você tem valor, se esforce, realize todos os seus sonhos. É isso que todo mundo quer. Seja necessário, competente, faça a diferença! A competição e a disputa são estimuladas a todo momento.

Somos jogados ao ringue. Como consequência convivemos com a inveja, com o ódio, a discórdia, a frustração, a insatisfação e todo tipo de descontentamento. E vamos levando e passando isso adiante, sem nada questionar.

Vivemos uma fantasia em função do status, orgulhosos da nossa posição social. Não percebemos, que no fundo, somos escravos, que estamos trancafiados em uma senzala de luxo. Também não há vantagem nenhuma em o ser o chefe da senzala ou a liderança de um grupo de escravos, pois não é motivo de vaidade ser o escravo que dirige o carro de boi, ao invés daquele que corta o pasto; ser o capitão, ao invés do escravo comum. A escravidão é a mesma.

Em nosso dia-a-dia, somos estimulados pela esperança, pela expectativa de comprar roupas, nossa própria casa, nosso carro, de conquistar status, fama, poder, diversões, sensações de prazer, férias, qualidade de vida, viagens. Somos movidos pela ilusão de sermos criaturas livres, que fazemos o que queremos, ainda que seja por apenas alguns momentos. E, estas expectativas, são permanentemente incentivadas, para que a máquina humana produza e consuma cada vez mais.

Ninguém sofre por que quer, ninguém permanece em uma situação de sofrimento sem que exista nela algum tipo de prazer, algum tipo de sensação sensorial prazerosa, sejam momentâneas ou, broken-chains (1)principalmente pela expectativa de prazeres futuros. E estas expectativas de prazeres futuros acabam nos cegando, enfraquecendo nossas mentes e nos tornando cativos de uma ilusão.

A verdadeira qualidade de vida e os verdadeiros refúgios, estão na mente e no coração tranquilos do SER sábio, do SER liberto de todo tipo de DESEJO.

Os antigos calabouços, as barras de ferro das prisões, as paredes, as correntes, foram trocadas pelo aprisionamento das mentes, cultivando e desenvolvendo o desejo, o apego, a esperança, a expectativa, o sonho, a fantasia.

E o resultado disto é muito mais devastador do que as prisões, as paredes, as correntes. Por uma simples e tola ilusão, muitos de nós ainda trocamos as barras e as correntes de ferro das prisões psicológicas por barras de ouro, que passamos a adorar.

Forma de morrer

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Certa vez Nasrudin se viu em grandes apuros.

Em uma viagem através de um país estranho foi confundido com um malfeitor foragido da justiça.

Foi preso e condenado à morte.

Nasrudin quase não teve tempo de acreditar no que acontecia.

Quando enfim percebeu a gravidade da situação, colocou uma forte intuição no sentido de se livrar daquilo. A forma, ele nem imaginava.

Como era comum naquele país, o condenado tinha o direito de satisfazer a sua última vontade.

Quando foi perguntado qual era a sua última vontade, Nasrudin disse:

– Escolher a forma da minha morte!

O Juiz disse a Nasrudin:

– Você foi condenado à morte e a forma como isso se dará não é relevante na questão. De que forma você quer morrer?

Nasrudin, aliviado, respondeu:

– De velho!

O Anel de Giges

 

Esta é uma alegoria narrada por Platão no livro II de “A Republica”

AnelGiges

Giges era um pastor que servia na casa do então soberano da Lídia.

Devido a uma grande tempestade e um tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava seu rebanho.

Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas, um cavalo de bronze, oco, com algumas aberturas, e espreitando através delas viu lá dentro um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão.

Arrancou-lhe e saiu. Ora, como os pastores se tivessem reunido, da maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o que dizia respeito aos rebanhos, Giges foi lá também, com o seu anel.

Estando ele, pois, sentado em meio aos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível.

Tendo observado estes fatos, experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo fez com que fosse um dos delegados que iam junto ao rei.

Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim tomou o poder. Esta aí um bom teste para nossas virtudes. O que faríamos nós se achássemos esse anel? A resposta a esta questão revela muito sobre nós mesmos. No caso do texto, o primeiro fato é que Giges saqueia o túmulo.

Depois, o poder o corrompe, ou traz à tona seu lado corrompido e podre. Na questão de saquear e roubar, quem pode dizer que nunca fez? Cometemos este delito quando pegamos um papel, um lápis ou uma caneta do trabalho sem pedir a ninguém, quando podemos fazer algo bem feito e fazemos de qualquer forma.

Criticamos governo, patrões, etc, mas são eles apenas reflexos de nós mesmos, de tal maneira que é só uma questão de oportunidade e de proporção. Como contribuintes nós sonegamos, como governantes desviamos a verba arrecadada.

Como funcionários fazemos corpo mole, não valorizamos o emprego, e como patrões não valorizamos os empregados. Platão diz no final do livro que devemos ser justos, com anel ou sem anel, o que parece claro.