Cadeia de comando

Todas as instâncias que conhecemos dependem de organização, de um ordenamento, o qual seja capaz de sustentar a vida e os processos ligados a ela. A Sustentação da Ordem é crescimento e desenvolvimento e a perda desta organização significa destruição, involução e morte (fim).

Tudo e todos estão em constante transformação, e não significa que um sistema ainda que sendo perfeito, não terá de deixar de existir, até porque a eternidade de um sistema é algo contrário ao sentido da própria vida que é constante transformação, nascimento e morte de todas as coisas inferiores.

Em qualquer que seja a área, qualquer que seja o aspecto de um Sistema, para que este funcione adequadamente, precisamos de uma cadeia de comando, e de uma organização muito objetiva acerca dos trabalhos que cada uma destas instâncias realiza. Seja no aspecto Social, Militar, Político, Religioso, Artístico, Científico, sempre encontraremos diversos postos e diversas instâncias as quais promovem certa Governabilidade daquele aspecto em específico, já que de outra maneira não haveria uma Instituição, um Grupo ou um Governo no aspecto social, ou do que quer que seja.

O Máximo Governante, seja de uma Instituição Religiosa, seja de uma Associação Política, ou seja de um Grupo Cultural ou Governamental, é quem tem a responsabilidade de interligar todos os demais poderes e de ter a visão imparcial das necessidades de todos, já que indiferente da região ou do aspecto, ele governa para todos.

Assim no caso dos Países, o Governo Nacional gerencia o País como um todo, mas há claro os Estados, as Cidades e cada uma tem seu comando próprio o que forma uma Cadeia de Comando e o que provê uma Governabilidade por conta destas sucessivas camadas. Nem sempre o Governante está bem intencionado ou é idôneo em suas ações e claro isto pode fazer com que seja substituído, seja qual for a área que estejamos falando. Afinal mesmo os Impérios desmoronam e nenhuma Monarquia mostra-se eterna como bem vemos.

De qualquer maneira, para que haja uma harmonia entre os poderes, é necessário que haja uma correta administração em cada uma das instâncias que conforma esta Cadeia de Comando, e se por algum motivo não há, é necessário corrigir isto da melhor maneira possível, pois é o principal motivo da ruína de qualquer sistema necessário a vida.

O Sistema sempre é mecanicidade, obviamente. E na Obra precisamos libertar-nos dos sistemas, mas não necessariamente seremos alheios aos mesmos, visto que se vivemos em um País, estamos inseridos no Sistema de Governo, ainda que como “governados”, também fazemos parte da força de trabalho em qualquer ramo que seja, assim estamos inseridos em um sistema de trabalho e dependemos do sistema financeiro, pois por mais que tenhamos independência, temos um registro civil, temos impostos, etc. Assim que, precisamos entender os sistemas, se queremos libertar-nos deles, e esta libertação é psicológica, ativa, não algo fictício no sentido a viver a vida como indigentes.

Imaginemos por um momento a atual humanidade sem um Governo, as ruas sem policiamento, nenhuma lei (humana) regendo as ações das pessoas, nenhum tipo de educação, sem um Sistema Militar para proteger o país em caso de catástrofes ou de invasões, sem saúde, nada… Dentro deste parâmetro, vemos que a Obra que temos de realizar seria algo muito difícil, ainda mais do que é hoje no atual formato que vive a humanidade.

Sabemos e certamente reconhecemos que boa parte dos sistemas existentes são falidos, são completamente ultrapassados e fadados ao mais iminente desastre. A Maior parte dos Sistemas que vemos são a mais absoluta antítese das Leis Divinas e contrariam a cada passo o sentido da própria Vida.

Cedo ou tarde, tudo submerge no caos, ainda que fosse perfeito, toda a sociedade é desmantelada para que retorne mais uma vez a sua origem e então renasça sob uma nova regência, um novo ciclo. Por isto que não podemos identificar-nos ou fazer uma luta sem esforços por aquilo que é inútil… Devemos claro buscar sempre o bem comum, e o melhor para todas as pessoas e demais criaturas, e dentro do campo de atuação que temos, dentro da Vocação e dentro do posto que ocupamos na Vida cotidiana, esgrimir a Consciência e atuar de maneira a sustentar a Vida, a Governabilidade, até que claro as correntes internas ditem outro rumo, outra direção.

Falamos aqui de tudo, não apenas dos Sistemas Humanos, mas dos Sistemas Divinos plasmados em nossa vida cotidiana. Houveram sim Governos Sociais instalados e mantidos pelas Divindades e mesmo Sistemas Religiosos como forma de conduzir os indivíduos à sua regeneração. Mas como sabemos, cada passo que estes Sistemas dão contra o Espírito, contra a realidade Espiritual em constante transformação, mais perto encontram-se de seu fim. E ainda que fossem perfeitos, não seriam eternos, como sabemos, pois tudo tem seu tempo…

Sustentar algo, ou não, depende de sermos capazes de reconhecer estas correntes internas e de integrar-nos com esta Vontade Universal que por vezes integra-se com alguns indivíduos de maneira a moldar a Ordem dos Mundos.

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A virtude e a tentação

A Vida, quantos mistérios tem a vida, e quantos incontáveis eventos temos de nos deparar e resolver para que possamos realmente resgatar estes valores íntimos que se encontram aprisionados em diferentes incompreensões, diferentes delitos em nosso interior.

Todos nós certamente apreciamos a calmaria, a tranquilidade, em seu sentido mais ameno e suave que proporciona a vida, mas no fundo estes momentos são os mais inúteis no sentido de modificações e avanços internos, pois estes processos tranquilos não permitem com que logremos desenvolver absolutamente nada, já que por não nos exigir nada, nada ganhamos.

A Grande diferença que existe entre aquilo que chamamos de Vida, que é esta vida comum e corrente que vivemos e aquilo que chamamos Caminho, no sentido de uma Obra Espiritual; é que na Vida nós não fazemos compreensão dos eventos, nem nos opomos ao que é errado, delituoso. Já quando nos integramos com esta fração Divina que em nosso interior levamos e passamos a dar a cada evento sua justa solução, então iniciamos a trilhar o caminho e passamos a ser tentados para que cometamos erros e da negação ao erro, surge, cresce, desenvolve-se a virtude.

Dificuldades, são coisas que vem de duas maneiras, uma como resultado de nossos delitos, quando vivemos a vida; e outra quando trilhamos o caminho e estas dificuldades são exatamente a oposição a esta integração espiritual, as tentações que buscam nos testar naquilo que estamos nos propondo realizar, e ao mesmo tempo vem para nos afastar disto, se falhamos. Ou claro, por outro lado, nos dá o aval concreto para que encarnemos e manifestemos estas preciosas joias que vamos recebendo do Espírito ao passar por estas provações.

Nem todas as pessoas trilham este caminho pela primeira vez, e raros aqueles que realmente se integram com a Obra, o fazem desde o começo. O que queremos dizer, é que nem sempre a vida nos parece justa se tentamos comparar o que vive um e o que vive outro, mas no fundo, as dificuldades, sejam humanas, sejam esotéricas, são o resultado destas particularidades de cada um, seja de seus erros, seja daquilo que o Íntimo de cada um precisa vivenciar e submete sua fração humana para que encarne as diferentes partes do Ser, ou mesmo se equipare mais uma vez a ele, já que quando nascemos não nascemos prontos, no sentido daquilo que já fizemos, senão que recapitulamos diversos processos ao longo da existência até estarmos novamente prontos para seguir em frente, dar continuidade aquilo que começamos em outras épocas, outras eras.

A Natureza constantemente recapitula-se em si mesma, o próprio período fetal que vivemos cada vez que regressamos ao reino humano, é no fundo uma vivência muito realista disto que falamos, afinal nos recorda a própria terra o ventre da mãe, e naturalmente nos desenvolvemos, e mesmo fora deste útero, já não nascemos falantes e atuantes, senão que recapitulamos certos processos e nos adaptamos a realidade atual da época e formamos os veículos necessários a esta expressão a este momento, como sabemos é a Personalidade neste caso, que serve de mediador com a localidade e a época que vivemos. Quando reencontramos o caminho espiritual, de certa maneira ocorre este mesmo processo, somente que esotérico, pois precisamos nos adaptar as palavras, ao método atual, seja para aprender, seja para poder ensinar. As próprias iniciações precisam ser revividas ainda que rapidamente, para que tenhamos mais uma vez estes valores encarnados e manifestos para as realizações que nos corresponde realizar.

Não há como existir virtude, sem tentação, nem tentação sem que haja um potencial, uma semente de virtude. Ninguém que não tenha condições de trilhar o caminho espiritual, pode ser tentado, pois seria um despropósito, uma inutilidade. Também a tentação são as trevas, a noite, e o caos, é o mesmo ventre, de onde se forjam e emanam as virtudes.

Em nossa vida, quando nos propomos a esta superação de nós mesmos, inevitavelmente surgem muitas escolhas delicadas, mesmo extremas, aonde somos tomados ao mesmo tempo por este impulso divino, e ainda assim tentados a outras realizações contrárias a isto e é aonde nos definimos pela Luz ou pelas Trevas, pelo ascenso ou pelo descenso. E ainda que o objetivo seja sempre superar estes obstáculos, inevitavelmente há processos aonde mesmo falhar é inevitável, já que é por vezes a forma de provar o orgulho, ou mesmo a continuidade de propósitos do caminhante, e é aonde muitos não entendem e abandonam o caminho precocemente.

Muitas pessoas reclamam de não ter encontrado a Luz, ou de não terem encarnados os dons e poderes espirituais que entendem lhes corresponde e no fundo temos de afirmar que quanto maior sejam estas trevas, se é que o iniciado está realmente trabalhando e verdadeiramente vencendo estas tentações, maior é sempre a luz, uma vez que teve de passar por isto em trevas. É claro que isto não é como ocorre com todos, porque cada um tem uma natureza distinta, vive processos distintos e isto faz com que de acordo com as missões que tenha, das realizações que lhe corresponda, venha tendo uma luz maior que os demais, uma compreensão e uma visão mais profunda e abrangente, como é natural de ser, já que não trabalha apenas por si mesmo, mas por guiar e ajudar outros em seu trabalho.

Há muitos princípios realmente Divinos hoje encerrados em formas humanas, prontos para desempenhar terríveis papéis em tempos tão difíceis como são estes que vivemos, e inevitavelmente passam por grandes sofrimentos e grandes amarguras e porque não dizer tragédias em suas vidas, exatamente para que consigam lograr vivenciar uma pequena fração de tudo que já viveram ao longo das eras e reincorporar mais uma vez estes Divinos Valores e Dons, os quais tem por direito fazer manifesto por meio de sua Alma, mas que depende da sábia vivência destes distintos processos que se desencadeiam em sua vida.

Entre Deus e o mundo

Era com admiração que me recordava diligentemente do longo tempo decorrido desde meus dezoito anos, quando comecei a arder no desejo da sabedoria, propondo-me, quando a achasse, abandonar todas as vãs esperanças e enganosas loucuras passionais. Chegado, porém aos trinta anos, ainda continuava preso ao mesmo lodaçal, ávido em usufruir dos bens presentes, que me fugiam e me dissipavam.  Entretanto, dizia: amanhã hei de encontrá-la; a verdade aparecerá clara, e a abraçarei. Faustosa virá, e me dará todas as explicações. Ó grandes varões da Academia: é verdade que não podemos compreender nenhuma coisa com certeza para a conduto de nossa vida? Mas não! Procuremos com mais diligencia, sem desesperarmos. Já não me parecem absurdas nas Escrituras as coisas que antes me pareciam tais: posso compreende-las de modo diferente, mais razoável. Fixarei, pois, os pés naquele degrau em que me colocaram meus pais quando criança, até que encontres a verdade em sua evidência. Mas onde e quando busca-la? Me falta tempo para ler. E além do mais, onde encontrar os livros? E onde ou quando poderei compra-los? A quem hei de pedi-los? Repartamos o tempo, reservemos algumas horas para a salvação da alma. Nasceu uma grande esperança: a fé dogmática não ensina o que pensamos, e eu a criticava levianamente. Seus doutores tem como crime limitar Deus a figura humana; e eu ainda hesito em bater para que nos sejam reveladas as outras verdades! As horas da manhã eu dedico aos alunos; mas que faço das outras? Por que não as consagro a essa busca? Mas quando então, visitar os amigos poderosos, de cujos favores necessito? Quando preparar as lições que os alunos me pagam? Quando reparar as forças do espírito,  descansando em algo aprazível? Perca-se tudo! Deixemos essas coisas vãs e faceis. Entreguemo-nos por completo a busca da verdade. A vida é miserável, e a hora da morte, incerta. Se esta me surpreender de  repente, em que estado sairei do mundo? E onde aprenderei o que deixei de aprender aqui? Não serei antes castigado por essa negligência? Mas, e se a própria morte cortar e for o fim a todo cuidado e sentimento? Também seria conveniente investigar este ponto. Mas afastemos tais pensamentos! Não é por acaso nem é em vão que se difunde por todo o mundo a fé cristã, com grande prestigio. Deus jamais teria criado tantas e tais coisas por nós, se com a morte do corpo terminasse também a vida da alma. Porque hesitar, pois, em abandonar as esperanças do mundo para me consagrar a busca de Deus e da bem-aventurança? Mas espere um pouco! Os bens mundanos também tem seus deleites, que não são pequenos. Não devo deixá-los sem pensar; seria feio ter de voltar a eles. Eis-me prestes a conseguir um  cargo de honra. Que mais posso desejar? Tenho uma multidão de amigos poderosos. Sem me apressar muito poderia obter, no mínimo, uma liderança. Poderia então casar-me com uma mulher formosa e de fortuna, para que meus gastos não fossem muito pesados. Aqui estariam os limites de meus desejos. Muitos homens grandes e dignos de imitação, apesar de casados, dedicaram-se ao estudo da sabedoria. Enquanto assim pensava, e os ventos cambiantes impeliam meu coração de um lado para outro, o tempo passava, e eu retardava minha conversão ao Senhor. Adiava de dia para dia o viver em ti, morrendo, todavia, todos os dias em mim mesmo. Amando a vida feliz, temia busca-la em sua morada; procurava-a fugindo dela! Pensava que seria mui desgraçado se me visse privado das caricias da mulher. Não pensava ainda no remédio de tua misericórdia, que cura esta enfermidade, porque nunca o havia experimentado. Julgava que a continência fosse obra de nossa própria força, que eu pensava não ter. Eu era bastante néscio para ignorar que ninguém, como esta escrito, é casto sem que tu lhes de a força. Essa força certamente me darias se eu ferisse teus ouvidos com os gemidos de minha alma, e com fé firme lançasse em ti meus cuidados.

O Orgulho

Terei também essa miséria como desprezível? Haverá algo que possa restituir-me a esperança, a não ser tua conhecida misericórdia, que começou a me transformar? Sabes o quanto já me transformaste; curaste-me primeiro da passionalidade vingativa, para perdoar-me também todos meus pecados, curar minhas fraquezas, resgatar minha vida da corrupção, conservar-me na piedade e misericórdia, e saciar dos teus bens meu desejo. Derrubaste meu orgulho pelo temor, dobrando minha cerviz a teu jugo. Agora eu trago o teu jugo, e o sinto suave, como prometeste e cumpriste. Na verdade, teu jugo já era suave, mas eu não o sabia quando receava tomá-lo sobre mim. Mas, Senhor, tu és o único que sabe mandar sem orgulho, porque és o único Senhor verdadeiro, que não tem senhor! Diga-me, terá cessado em mim, se isso pode acontecer nesta vida, esta terceira espécie de tentação, que consiste em querer ser temido e amado pelos homens, com o único fim de obter uma alegria que não é alegria? Que vida miserável, que arrogância indigna! Aí está o principal motivo porque não te amamos e tememos piamente. Por isso resistes aos soberbos, enquanto dás tua graça aos humildes. Trovejas contra as ambições do mundo, e faz abalar as montanhas até suas raízes. Ora, como é necessário, para se adequar à sociedade, fazer-se amar e temer pelos homens, o inimigo de nossa verdadeira felicidade nos alicia, e por toda parte semeia seus laços gritando: “Bravo! Muito bem!” – Para que, ávidos, recolhamos as lisonjas e nos deixemos incautamente enredar. Seu intento é que deixemos de encontrar nossa alegria na verdade, para buscá-la na mentira dos homens; estimula em nós o prazer em nos fazer temer e amar, não pelo teu amor, mas em teu lugar. Com isso nos tornamos semelhantes a ele, não unidos na caridade, mas partilhando de suas penas. Ele quis fixar sua morada no aquilão (vento gelado do Norte), para que nós, nas trevas e no frio, servíssemos o perverso e sinuoso imitador de teu poder. Nós, Senhor, somos teu pequeno rebanho: sê nosso dono. Estende tuas asas, para nosso refúgio. Sê nossa glória; que nos amem por tua causa, e que tua palavra seja observada por nós. Quem busca o louvor dos homens, quando tu o reprovas, não será por estes defendido quando o julgares, nem poderá subtrair á tua condenação. Mas quando não se louva um pecado pelos desejos de sua alma, nem se abençoa quem pratica iniquidades, mas te louva um homem pelos dons que lhe concedeste, se ele se compraz mais no louvor do que no dom que lhe atrai os louvores, tu o reprovas, a despeito dos louvores que recebe dos homens. E quem o louva é melhor do que é louvado, porque um se agradou com o dom de Deus, e o outro alegrou-se com o dom do homem.

O Ovo e a Páscoa

De onde provém este símbolo Universal? O Ovo figurou como o signo sagrado nas cosmogonias de todos os povos da Terra e foi Venerado tanto por causa de sua forma como pelo mistério que encerra. Desde a primeiras concepções mentais do homem, foi considerado o símbolo  que melhor representara a origem e o segredo do ser. O desenvolvimento progressivo do germe  imperceptível dentro da casca; o trabalho interno que, sem a intervenção de nenhuma força externa aparente, de um nada latente, produz algo ativo, sem para isso necessitar de outra coisa além de calor; algo que, depois de evolucionar gradualmente em uma criatura viva e concreta, rompe a casca e aparece aos sentidos externos de todos como um ser gerado por si mesmo e por si mesmo criado; tudo isso tinha de ser, desde o começo, um milagre permanente. O ensinamento secreto explica a razão daquela veneração pelo simbolismo das raças pré-históricas. No princípio a “Causa Primeira” não tinha nome. Mais tarde, a fantasia dos pensadores a representou como uma Ave, sempre invisível e misteriosa, que deixou cair um Ovo no Caos, Ovo que se converteu no Universo. Eis que Brahmâ foi chamado Kâlahamsa, “o cisne no espaço e no Tempo”. Tornando-se o cisne da Eternidade”, Brahmâ pôs, no início de cada Mahâmvantara, um “Ovo de Ouro”, que simboliza o grande Círculo, ou O, que por sua vez é símbolo do universo de seus corpos esféricos. A segunda razão pela qual o ovo foi escolhido como a representação simbólica do Universo e de nossa Terra está na sua forma. É um círculo e uma Esfera, e a forma ovoide do nosso globo já devia ser conhecida desde quando surgiu o simbolismo, para que o signo do OVO fosse tão universalmente adotado. A primeira manifestação do Kosmos com a forma do um ovo era a crença mais difundida da Antiguidade. Era um símbolo usado entre os gregos, os sírios, os persas, os egípcios. Entre os gregos, o Ovo Órfico fazia parte dos mistérios dionisíacos e de outros, durante os quais era consagrado o Ovo do Mundo e explicada a sua significação. Porfírio também o apresenta como uma representação do mundo. Na Grécia, como na Índia, o primeiro ser masculino visível, que reunia em si mesmo a natureza dos dois sexos, habitou o ovo e dele saiu. Esse “primogênito do mundo“, segundo alguns gregos foi Dionísio, o deus que surgiu do ovo do mundo e do qual provém os mortais e os imortais.

Considerando essa Forma circular. o “|” saindo do “O” ou OVO, ou o macho da fêmea no andrógino, o 10, sendo o número sagrado do Universo, era secreto e esotérico, tanto em relação à unidade quanto em relação ao zero, o círculo. O simbolismo das Divindades lunares e solares se acha de tal modo entrelaçado que é quase impossível separar os signos de umas e outras, como o ovo, o lótus e os animais “sagrados”. A Íbis, por exemplo, era objeto de grande veneração no Egito. Era consagrada a Ísis, representada muitas vezes com a cabeça desse pássaro, e também a Mercúrio ou Thot, que se diz haver tomado sua forma quando escapou de Tífon. Havia duas espécies de Íbis no Egito, conta Heródoto: uma inteiramente negra, e a outra preta com branca. Dizia-se que a primeira combatia e exterminava as serpentes aladas que vinham da Arábia na primavera e infestavam o pais. A outra era consagrada à lua, porque esse astro é branco e brilhante em seu lado externo e negro e escuro do lado que nunca mostra a Terra. Além disso, a Íbis mata as serpentes da terra e destrói quantidades imensas de ovos de Crocodilo livrando assim o Egito de ter o Nilo infestado por esses horríveis saurios. Supõe-se que o pássaro execute sua tarefa sob a claridade da lua, sendo assim ajudado por Ísis, cujo símbolo sideral é a lua. Mas a verdade esotérica, que se esconde por trás dos mitos populares, é que Hermes velava sobre os egípcios na forma daquele pássaro lhes ensinando as artes e as ciências ocultas. Quer isso dizer que a Íbis religiosa tinha — e tem — propriedades “mágicas“, como muitas outras aves, sobretudo o albatroz e o mítico cisne branco, o cisne da Eternidade ou do Tempo, o Kâlahamsa.

Se assim não fosse, por que aquele temor supersticioso dos antigos, que não eram mais tolos do que nós, de matar certas aves? No Egito, quem matasse uma Íbis ou um falcão dourado, símbolo do Sol e de Osíris, arriscava-se à morte e dificilmente conseguia escapar. A veneração das aves por alguns povos era tamanha que Zoroastro, em seus preceitos, proibiu a destruição delas, por considerar isso um crime hediondo. Mas os próprios cristãos tem, ainda hoje, as suas aves sagradas: por exemplo, a pomba, símbolo do Espírito Santo. Nem tampouco esqueceram os animais sagrados, e a zoolatría bíblica evangélica, com seu Touro, a sua Águia, o seu Leão, o seu Anjo (que não é senão o querubim ou serafim, a serpente de fogo alada), é tão pagã como a dos egípcios ou a dos caldeus. Esses quatro animais, em verdade, são os símbolos dos quatro elementos e dos quatro princípios do homem. Contudo, corresponde também, física e materialmente, as quatro constelações que formam, por assim dizer, o séquito ou cortejo do Deus Solar e que, durante o solstício de inverno, ocupam os quatro pontos cardeais do circulo zodiacal. São os animais do Mercabah do Profeta Ezequiel.

É fato que os antigos hierofantes combinaram tão habilmente os dogmas e símbolos de suas filosofias religiosas que não é possível explicá-los de maneira cabal e satisfatória senão mediante o emprego e o conhecimento de todas as chaves.  Só aproximadamente podem ser interpretados, ainda quando se cheguem a descobrir três dos sete sistemas, a saber: o antropológico, o psíquico e o astronômico. As duas principais interpretações, a mais elevada e a inferior, a espiritual e a fisiológica, foram conservadas no maior sigilo até que a última caiu no domínio dos profanos. No livro dos Mortos alude-se frequentemente ao Ovo. , o poderoso, permanece em seu Ovo durante a luta entre os “filhos da rebelião” e Shu (a Energia Solar e o Dragão das Trevas). O defunto resplandece em seu Ovo quando faz a travessia para o país do mistério. É o Ovo de Seb. O Ovo era o símbolo da vida na imortalidade e na eternidade, e também o signo da matriz geradora; ao passo que o tau, que lhe estava associado, era só o símbolo da vida e do nascimento na geração. O Ovo do Mundo estava colocado em Khum, a “Água do Espaço” ou o princípio feminino abstrato; e quando Ptah, o “deus solar”, levava na mão o Ovo do Mundo, o simbolismo torna-se inteiramente terrestre e concreto em sua significação.

Com o falcão, signo de Osiris-Sol, o símbolo é dual, referindo-se a ambas as vidas: a mortal e a imortal. Em um papiro reproduzido no Oedipus Aegyptiacus de Kircher, ve-se um ovo flutuando sobre a múmia. É símbolo da esperança e a promessa de um segundo nascimento para o morto Osirificado; sua alma, após a devida purificação no Amenti, cumprirá seu período de gestação nesse ovo da imortalidade para dele renascer em uma nova vida sobre a Terra. Esse Ovo é, segundo a doutrina esotérica, o Devachan, a mansão da felicidade. O escaravelho alado é outro símbolo de idêntica significação. O “globo alado” não é senão outra forma do ovo, com o mesmo significado do escaravelho. Nos Hinos Orficos, Eros-Phanes surge do Ovo divino, que se impregna dos Ventos Aethéreos, sendo o centro “o Espírito de Deus“, ou melhor, “o Espírito das Trevas desconhecidas” – a “ideia” divina, diz Platão, “que se presume mover o Aether“.

Há muitas alegorias encantadoras sobre o assunto, esparsas nos livros sagrados brâmanes. Em uma delas, é o criador feminino quem é primeiro um germe, depois uma gota de orvalho celeste, uma pérola e finalmente um ovo. Em tais casos, o ovo da origem aos quatro elementos dentro do quinto, o Éter, e está coberto por sete envoltórios, que mais tarde se convertem nos sete mundos superiores e nos sete mundos inferiores. Partindo-se em duas, a casca forma o céu e o conteúdo, a terra, sendo a clara as águas terrestres. O ovo era consagrado a Ísis, e por isso os sacerdotes do Egito jamais comiam ovos. Os chineses acreditavam que o seu primeiro homem nasceu de um ovo, que o Deus Tien deixou cair do céu nas águas da Terra. Muitos ainda consideram esse símbolo uma representação da ideia da origem da vida, o que é uma verdade científica, se bem que o ovum humano seja invisível a olho nu.

Dai a razão por que, desde os tempos mais remotos, era o símbolo reverenciado pelo gregos, fenícios, romanos, japoneses e siameses, assim como pelas tribos da América do Norte e do Sul e até pelos selvagens das ilhas mais longincuas. Os Cristãos, especialmente os das igrejas grega e latina, adotaram inteiramente o símbolo e veem nele uma evocação da vida eterna, da salvação e da ressurreição. Há uma confirmação disso no costume tradicional de se presentearem “Ovos de Páscoa“. Desde o anguinum, o “Ovo” do druida pagão, até o Ovo da Páscoa vermelho do camponês eslavo, transcorreu todo um ciclo. E, no entanto, seja na Europa civilizada, seja entre as mais destituídas dentre as tribos selvagens da América Central, encontramos sempre o mesmo pensamento arcaico primitivo, se nos dermos ao trabalho de procurá-lo e se não desfigurarmos a ideia original do símbolo, em consequência do orgulho de nossa pretensa superioridade intelectual e física.