O Ovo e a Páscoa

De onde provém este símbolo Universal? O Ovo figurou como o signo sagrado nas cosmogonias de todos os povos da Terra e foi Venerado tanto por causa de sua forma como pelo mistério que encerra. Desde a primeiras concepções mentais do homem, foi considerado o símbolo  que melhor representara a origem e o segredo do ser. O desenvolvimento progressivo do germe  imperceptível dentro da casca; o trabalho interno que, sem a intervenção de nenhuma força externa aparente, de um nada latente, produz algo ativo, sem para isso necessitar de outra coisa além de calor; algo que, depois de evolucionar gradualmente em uma criatura viva e concreta, rompe a casca e aparece aos sentidos externos de todos como um ser gerado por si mesmo e por si mesmo criado; tudo isso tinha de ser, desde o começo, um milagre permanente. O ensinamento secreto explica a razão daquela veneração pelo simbolismo das raças pré-históricas. No princípio a “Causa Primeira” não tinha nome. Mais tarde, a fantasia dos pensadores a representou como uma Ave, sempre invisível e misteriosa, que deixou cair um Ovo no Caos, Ovo que se converteu no Universo. Eis que Brahmâ foi chamado Kâlahamsa, “o cisne no espaço e no Tempo”. Tornando-se o cisne da Eternidade”, Brahmâ pôs, no início de cada Mahâmvantara, um “Ovo de Ouro”, que simboliza o grande Círculo, ou O, que por sua vez é símbolo do universo de seus corpos esféricos. A segunda razão pela qual o ovo foi escolhido como a representação simbólica do Universo e de nossa Terra está na sua forma. É um círculo e uma Esfera, e a forma ovoide do nosso globo já devia ser conhecida desde quando surgiu o simbolismo, para que o signo do OVO fosse tão universalmente adotado. A primeira manifestação do Kosmos com a forma do um ovo era a crença mais difundida da Antiguidade. Era um símbolo usado entre os gregos, os sírios, os persas, os egípcios. Entre os gregos, o Ovo Órfico fazia parte dos mistérios dionisíacos e de outros, durante os quais era consagrado o Ovo do Mundo e explicada a sua significação. Porfírio também o apresenta como uma representação do mundo. Na Grécia, como na Índia, o primeiro ser masculino visível, que reunia em si mesmo a natureza dos dois sexos, habitou o ovo e dele saiu. Esse “primogênito do mundo“, segundo alguns gregos foi Dionísio, o deus que surgiu do ovo do mundo e do qual provém os mortais e os imortais.

Considerando essa Forma circular. o “|” saindo do “O” ou OVO, ou o macho da fêmea no andrógino, o 10, sendo o número sagrado do Universo, era secreto e esotérico, tanto em relação à unidade quanto em relação ao zero, o círculo. O simbolismo das Divindades lunares e solares se acha de tal modo entrelaçado que é quase impossível separar os signos de umas e outras, como o ovo, o lótus e os animais “sagrados”. A Íbis, por exemplo, era objeto de grande veneração no Egito. Era consagrada a Ísis, representada muitas vezes com a cabeça desse pássaro, e também a Mercúrio ou Thot, que se diz haver tomado sua forma quando escapou de Tífon. Havia duas espécies de Íbis no Egito, conta Heródoto: uma inteiramente negra, e a outra preta com branca. Dizia-se que a primeira combatia e exterminava as serpentes aladas que vinham da Arábia na primavera e infestavam o pais. A outra era consagrada à lua, porque esse astro é branco e brilhante em seu lado externo e negro e escuro do lado que nunca mostra a Terra. Além disso, a Íbis mata as serpentes da terra e destrói quantidades imensas de ovos de Crocodilo livrando assim o Egito de ter o Nilo infestado por esses horríveis saurios. Supõe-se que o pássaro execute sua tarefa sob a claridade da lua, sendo assim ajudado por Ísis, cujo símbolo sideral é a lua. Mas a verdade esotérica, que se esconde por trás dos mitos populares, é que Hermes velava sobre os egípcios na forma daquele pássaro lhes ensinando as artes e as ciências ocultas. Quer isso dizer que a Íbis religiosa tinha — e tem — propriedades “mágicas“, como muitas outras aves, sobretudo o albatroz e o mítico cisne branco, o cisne da Eternidade ou do Tempo, o Kâlahamsa.

Se assim não fosse, por que aquele temor supersticioso dos antigos, que não eram mais tolos do que nós, de matar certas aves? No Egito, quem matasse uma Íbis ou um falcão dourado, símbolo do Sol e de Osíris, arriscava-se à morte e dificilmente conseguia escapar. A veneração das aves por alguns povos era tamanha que Zoroastro, em seus preceitos, proibiu a destruição delas, por considerar isso um crime hediondo. Mas os próprios cristãos tem, ainda hoje, as suas aves sagradas: por exemplo, a pomba, símbolo do Espírito Santo. Nem tampouco esqueceram os animais sagrados, e a zoolatría bíblica evangélica, com seu Touro, a sua Águia, o seu Leão, o seu Anjo (que não é senão o querubim ou serafim, a serpente de fogo alada), é tão pagã como a dos egípcios ou a dos caldeus. Esses quatro animais, em verdade, são os símbolos dos quatro elementos e dos quatro princípios do homem. Contudo, corresponde também, física e materialmente, as quatro constelações que formam, por assim dizer, o séquito ou cortejo do Deus Solar e que, durante o solstício de inverno, ocupam os quatro pontos cardeais do circulo zodiacal. São os animais do Mercabah do Profeta Ezequiel.

É fato que os antigos hierofantes combinaram tão habilmente os dogmas e símbolos de suas filosofias religiosas que não é possível explicá-los de maneira cabal e satisfatória senão mediante o emprego e o conhecimento de todas as chaves.  Só aproximadamente podem ser interpretados, ainda quando se cheguem a descobrir três dos sete sistemas, a saber: o antropológico, o psíquico e o astronômico. As duas principais interpretações, a mais elevada e a inferior, a espiritual e a fisiológica, foram conservadas no maior sigilo até que a última caiu no domínio dos profanos. No livro dos Mortos alude-se frequentemente ao Ovo. , o poderoso, permanece em seu Ovo durante a luta entre os “filhos da rebelião” e Shu (a Energia Solar e o Dragão das Trevas). O defunto resplandece em seu Ovo quando faz a travessia para o país do mistério. É o Ovo de Seb. O Ovo era o símbolo da vida na imortalidade e na eternidade, e também o signo da matriz geradora; ao passo que o tau, que lhe estava associado, era só o símbolo da vida e do nascimento na geração. O Ovo do Mundo estava colocado em Khum, a “Água do Espaço” ou o princípio feminino abstrato; e quando Ptah, o “deus solar”, levava na mão o Ovo do Mundo, o simbolismo torna-se inteiramente terrestre e concreto em sua significação.

Com o falcão, signo de Osiris-Sol, o símbolo é dual, referindo-se a ambas as vidas: a mortal e a imortal. Em um papiro reproduzido no Oedipus Aegyptiacus de Kircher, ve-se um ovo flutuando sobre a múmia. É símbolo da esperança e a promessa de um segundo nascimento para o morto Osirificado; sua alma, após a devida purificação no Amenti, cumprirá seu período de gestação nesse ovo da imortalidade para dele renascer em uma nova vida sobre a Terra. Esse Ovo é, segundo a doutrina esotérica, o Devachan, a mansão da felicidade. O escaravelho alado é outro símbolo de idêntica significação. O “globo alado” não é senão outra forma do ovo, com o mesmo significado do escaravelho. Nos Hinos Orficos, Eros-Phanes surge do Ovo divino, que se impregna dos Ventos Aethéreos, sendo o centro “o Espírito de Deus“, ou melhor, “o Espírito das Trevas desconhecidas” – a “ideia” divina, diz Platão, “que se presume mover o Aether“.

Há muitas alegorias encantadoras sobre o assunto, esparsas nos livros sagrados brâmanes. Em uma delas, é o criador feminino quem é primeiro um germe, depois uma gota de orvalho celeste, uma pérola e finalmente um ovo. Em tais casos, o ovo da origem aos quatro elementos dentro do quinto, o Éter, e está coberto por sete envoltórios, que mais tarde se convertem nos sete mundos superiores e nos sete mundos inferiores. Partindo-se em duas, a casca forma o céu e o conteúdo, a terra, sendo a clara as águas terrestres. O ovo era consagrado a Ísis, e por isso os sacerdotes do Egito jamais comiam ovos. Os chineses acreditavam que o seu primeiro homem nasceu de um ovo, que o Deus Tien deixou cair do céu nas águas da Terra. Muitos ainda consideram esse símbolo uma representação da ideia da origem da vida, o que é uma verdade científica, se bem que o ovum humano seja invisível a olho nu.

Dai a razão por que, desde os tempos mais remotos, era o símbolo reverenciado pelo gregos, fenícios, romanos, japoneses e siameses, assim como pelas tribos da América do Norte e do Sul e até pelos selvagens das ilhas mais longincuas. Os Cristãos, especialmente os das igrejas grega e latina, adotaram inteiramente o símbolo e veem nele uma evocação da vida eterna, da salvação e da ressurreição. Há uma confirmação disso no costume tradicional de se presentearem “Ovos de Páscoa“. Desde o anguinum, o “Ovo” do druida pagão, até o Ovo da Páscoa vermelho do camponês eslavo, transcorreu todo um ciclo. E, no entanto, seja na Europa civilizada, seja entre as mais destituídas dentre as tribos selvagens da América Central, encontramos sempre o mesmo pensamento arcaico primitivo, se nos dermos ao trabalho de procurá-lo e se não desfigurarmos a ideia original do símbolo, em consequência do orgulho de nossa pretensa superioridade intelectual e física.

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A Revolução da consciência

conscienciaA única evolução possível para o animal intelectual (equivocadamente chamado homem) é a evolução da sua consciência.

O que é consciência? É o Ser, é o Pai dentro de nós. A evolução da humanidade ou das humanidades que estudamos em Posts passados diz respeito somente à mecânica evolutiva da natureza. Aqui, quando falamos de evolução da consciência, estamos nos referindo a um tipo muito particular de evolução: aquela que o próprio indivíduo decide levar adiante, valendo-se da ciência alquímica e correndo por fora da mecânica evolutiva da natureza. Este é um trabalho muito especial, como veremos, mas é preciso compreender que a consciência não pode evoluir inconscientemente.

A evolução da humanidade é extremamente lenta porque está atrelada à evolução do planeta. A evolução do planeta é infinitamente longa; consequentemente, seriam necessários milhões de anos para se alcançar alguns poucos resultados. Já a Alquimia possibilita que em 20, 30 ou 40 anos se possa lograr o que demandariam milhões de anos.

Dentro da evolução mecânica da natureza não podemos perder de vista o fato de que toda a vida orgânica do planeta serve unicamente aos interesses dele mesmo. Assim, sendo o homem parte dessa vida orgânica, sua evolução além dos limites impostos pela mesma natureza é contra suas leis e desígnios. Por isso mesmo só os indivíduos podem evoluir — jamais as massas.

O conhecimento para possibilitar a evolução dos indivíduos é distribuído parcimoniosamente. Se esse conhecimento fosse distribuído a mãos cheias às multidões acabaria faltando. É como se quiséssemos distribuir um quilo de ouro para a população pobre do Brasil. Não haveria ouro para todos e a fração de ouro que cada um receberia não resolveria seus problemas.

Assim, amigo leitor, se você recebeu este conhecimento, dado aqui, é porque você, de alguma maneira, tem méritos para isso. Não importa por que meios você chegou até esta fonte. O importante é o fato de ter chegado, e agora compete a você trabalhar e desenvolver em si mesmo as possibilidades da sua consciência. É hora de acordar, irmão! O sonho acabou! Mas, se você desprezar agora esta oportunidade, uma nova oportunidade não te será dada tão cedo. Pense nisso e aproveite! O tempo corre mais rápido que teu pó.

Níveis de saber e jeitos de ser

Tratemos agora de um tema muito polêmico mas de grande importância para o trabalho que temos em vista. Referimo-nos aos níveis de saber e ao jeito de ser de cada um. Samael Aun Weor denomina essas duas linhas da vida como sendo o “nível de saber” e o “nível de ser” de cada um.

Aqueles que buscam a evolução da consciência humana precisam aprender a equilibrar esses dois níveis: o ser e o saber. As duas linhas devem avançar sempre em equilíbrio para que a evolução aconteça de forma harmoniosa e completa. Uma linha deve sempre sustentar a outra. Se a linha do “saber” ultrapassar a do “ser”, mais cedo ou mais tarde, a evolução se estancará. Do mesmo modo, se a linha do “ser” avançar mais que a do “saber”, haverá desequilíbrio e todo o progresso interno será impossibilitado.

Todo mundo compreende o significado de “saber”, reconhecendo inclusive distintos “níveis de saber” e compreendendo que esses níveis podem ser mais, ou menos elevados, de acordo com os cursos e especializações que uma pessoa realize durante sua vida. Entretanto, o mesmo já não acontece com os “níveis de ser” porque temos a marcada tendência de confundir “ser” com “existir” e, assim, ficamos impossibilitados de ver que o “ser” também gradua-se em diferentes níveis.

Sabemos que o jeito ou o nível de “ser” de um animal é bem diferente do “jeito de ser” de um homem. Por incrível que pareça, dois homens podem “ser” ainda mais diferentes entre si que uma planta e um animal. Por exemplo, olhemos o nível de ser de um criminoso ou traficante de drogas e um homem religioso (que obviamente viva e pratique sua doutrina). Também não é difícil estabelecer diferenças entre os “níveis de ser” de um adulto e de uma criança ou de um adulto e de um ancião.

No Ocidente é perfeitamente normal e admissível a idéia de um homem ter um vasto saber e uma cultura extraordinária — como um cientista, que faz grandes e importantes descobertas — e, ao mesmo tempo, “ser” uma pessoa egoísta, mesquinha, invejosa, orgulhosa, cética, vingativa, etc.. Neste lado do mundo não temos nenhuma vergonha de ter um baixo nível de ser.

Aqui, no Ocidente, é um insulto chamar o outro de burro ou de ignorante (baixo nível de saber), mas, parece que pouca importância se dá ao “jeito de ser” de muita gente que vive como prostituta, ladrão, homossexual, egoísta, explorador, drogado, bêbado, mau chefe de família, etc. especialmente aqui neste país do jeitinho nacional de triunfar na vida… Enquanto estivermos satisfeitos com nosso nível de saber, e não dermos grande importância ao nosso jeito de ser, qualquer mudança psicológica ou de consciência se torna impossível.

Quando o saber ultrapassa em muito o ser, o homem torna-se especulador, teórico, cético, abstrato, imprestável à vida prática; às vezes chega a se tornar nocivo às pessoas e à sociedade na medida em que complica ou distorce a realidade das coisas.

  1. Será o saber de uma coisa ligada à ignorância de outra?
  2. Será o saber do detalhe ligado à ignorância do todo?
  3. Será o saber da forma ignorante da essência?

Sem uma mudança da natureza do jeito ou do nível de ser é impossível uma mudança da natureza do saber. O ser ou jeito de ser do homem moderno, considerado em si, caracteriza-se pela ausência de unidade e pela ausência de propriedades inerentes a quem possui verdadeira unidade de ser:

  1. Consciência lúcida
  2. Vontade livre
  3. Capacidade de fazer
  4. Caráter altruísta
  5. Voltar-se para a solidariedade e bem estar dos semelhantes, etc., etc..

O jeito de ser do homem moderno possui muitos lados diferentes e contraditórios, fazendo de sua vida um verdadeiro inferno:

  1. Atividade e passividade
  2. Verdade e mentira
  3. Sinceridade e falsidade
  4. Coragem e covardia
  5. Controle e descontrole
  6. Calma e irritabilidade
  7. Orgulho e humildade
  8. Preguiça, vaidade, amor próprio, moralidade, depravação, avareza, cobiça, sentimentalismo, apegos, etc.

Como regra geral, para fins de nossos estudos de psicologia de evolução humana, podemos dizer que o ser do homem moderno é de qualidade muito inferior ao do homem que construiu a Idade de Ouro da humanidade. Em muitos casos esse nível de ser é tão baixo que já não mais é possível uma modificação ou mudança positiva.

Aquele que ainda sente alguma possibilidade de deixar de ser máquina ou ente mecânico a serviço dos desígnios da natureza deve se considerar muito feliz — sinal que não mal gastou sua preciosa Essência (ou consciência), da qual pode cristalizar isso que se chama “Ser”.

Reconhecemos ser doloroso examinar o panorama da humanidade atual e ver bilhões de entes mecânicos mal chamados homens sem a menor possibilidade de conserto ou de evolução da sua consciência neste momento.

Como pode evidenciar o leitor que chegar à compreensão das ideias aqui expostas, de modo nenhum é aconselhável o desenvolvimento do “nível de saber” em desequilíbrio com o “nível de ser” (ou vice-versa). Mas, contraditória ou incoerentemente, parece que é a unilateralidade desse desenvolvimento o que mais atrai e encanta as pessoas.

Compreensão: A Chave da transformação

Vimos que o desenvolvimento do saber sem o correspondente desenvolvimento do ser produz um homem que sabe muito, mas que nada (ou muito pouco) pode fazer, um homem sem nenhum poder sobre as leis da vida, um homem que não compreende o que sabe, um homem sem apreciação, sem a capacidade de avaliar as diferenças entre um gênero e outro de saber.

Do outro lado temos o desenvolvimento do ser sem o correspondente desenvolvimento do saber, que produz isso que poderíamos, grosseiramente, denominar de “santo estúpido”, um homem que tem poderes ou que pode fazer muito, mas que não sabe o que, como e com que fazer; e se faz alguma coisa, o faz prisioneiro de sentimentos e boas intenções, mas cujo resultado costuma quase sempre ser desastroso.

É o caso dos sinceros equivocados que, imbuídos de nobres e celestiais intenções, cometem crimes odiosos e imperdoáveis. Isso nos recorda, de certo modo, a “santa” inquisição, com seus milhares de assassinatos em nome de Deus.

— Seriam os inquisidores “frios criminosos” ou “santos estúpidos”?
— Qual a diferença entre um criminoso desse tipo e um santo ignorante?

Não importa, no fundo todos os grandes erros são cometidos pelo desequilíbrio entre as linhas do ser e do saber. O mal sempre é feito, de uma ou de outra forma.

A compreensão é a única maneira de se perceber a interdependência entre o ser e o saber.

Saber é uma coisa; ter compreensão daquilo que se sabe é outra, bem diferente. A própria consciência precisa se tornar consciente de si mesma.

O saber, por si mesmo, não dá compreensão. E a compreensão não poderia ser aumentada apenas por acréscimo de saber. A compreensão é uma luz (digamos) que surge da relação, do cruzamento das linhas do ser e do saber. A compreensão só cresce em função do desenvolvimento da linha do ser.

Todo mundo sabe como acumular saber, mas poucos conhecem a ciência de acumular “ser”. Esse conhecimento só é passado nas escolas que ensinam a encarnar Espírito.

Vejamos um exemplo: um homem não pode compreender a idéia da mecanicidade humana apenas porque leu em algum livro. Para que esse homem compreenda a mecanicidade da vida deve senti-la com toda sua força dentro de si mesmo. Só assim a compreenderá. É no campo prático que isso se torna mais real. O grande problema ou dificuldade de se compreender o que é compreensão está na linguagem; rotular, apelidar, dar nomes, todo mundo faz. Mas isso não significa que se tenha compreendido o que se está denominando de A ou B.

A compreensão é uma vivência, uma espécie de apreensão da verdade ou essência de uma dada realidade ou objeto. É um estalo, um insight, um clic que faz com que a gente “saiba” determinada coisa.

Um homem pode saber ou ter informações descritivas a respeito da dor do parto, mas nunca terá a compreensão do que é a dor do parto ou da maternidade porque nunca gerou um filho. E assim acontece com tudo. Muitas vezes pensamos que compreendemos uma coisa quando, na verdade, estamos recebendo uma informação sobre essa mesma coisa.

Colocamos aqui muita ênfase no aspecto “compreensão” porque sem isso nenhum trabalho sobre si será possível. Enquanto um homem não compreender a sua própria mecanicidade, não a notará, e não a percebendo, não fará nenhum esforço para deixar de ser mecânico.

Do mesmo modo, enquanto o estudante não compreender que toda evolução só será possível se desenvolver a sua consciência, não trabalhará para isso; não fará todos os esforços necessários para plasmar uma consciência permanente e contínua.

O conhecimento de si mesmo

Nosce te ipsum | Gnosei seauton

fe-e-cienciaEssa fórmula, geralmente atribuída ao Templo de Delfos, é muito antiga, tendo servido de base para muitas escolas de formação de Homens muito antes que a Grécia irrompesse no cenário da História.

O conhecimento de si é a base para qualquer trabalho de evolução humana. Por mais estudo que tenham feito nossos psicólogos isso nada representa no sentido de o homem realmente se conhecer. O conhecimento de si implica no conhecimento da máquina humana como um todo, fazer-se consciente de todos seus processos e, ainda, ir além: Tornar sua inteligência iluminada.

A estrutura da máquina humana é idêntica em todo mundo. Se alguém quiser evoluir, alcançar seus infinitos potenciais psicológicos, deve buscar se conhecer profundamente antes de iniciar qualquer mudança. Do contrário, ainda que queira mudar, não saberá para que direção mudar.

Na máquina humana tudo está ligado, de modo que o todo depende do detalhe e o detalhe depende do todo. Não se pode, dessa maneira, estudar-se uma função sem considerar as demais. Esse estudo exige tempo e, muitas pessoas, não são pacientes, não estão dispostas a se estudar. Com isso causam a si mesmas grandes e irreparáveis males e acabam perdendo seu retorno ou sua atual encarnação correndo atrás de leituras, sonhos, fantasias e promessas esotéricas.

O método fundamental para o autoconhecimento é a observação permanente e contínua de si mesmo. Sem uma correta e permanente “observação” de si mesmo um homem jamais compreenderá as ligações e as correspondências das diversas funções da máquina humana e, por causa disso, nunca compreenderá como as coisas acontecem nele.

Devemos, no início, apenas observar nossas atitudes, emoções, pensamentos, gestos, hábitos, palavras, etc. como fazemos num teatro, quando observamos os atores trabalhando no palco. Nós não participamos da peça; somos apenas espectadores. Assim devemos agir em relação a nós mesmos; apenas observar tudo que acontece conosco, sermos espectadores de nós mesmos. Num segundo momento devemos começar a estudar, refletir e a analisar como e por que as coisas acontecem em nosso amplo universo interior. Depois, fruto desse estudo e análise, vem a compreensão ou percepção real de nosso estado interior.

Por fim, tendo analisado criteriosamente todo esse intrincado funcionamento de nossos mecanismos psicológicos, devemos apelar a um poder superior a nossa mente, que, no Oriente, é denominado de Devi Kundalini Shakti. Esse poder superior a nossa mente é o único que pode ELIMINAR essas engrenagens e esses falsos valores que povoam nossos 5 centros.

Essa didática é necessária porque é muito difícil alguém estudar algo se não possuir material para o estudo. O material para estudo se obtém através da observação de si mesmo. A constante observação de nós mesmos nos permitirá conhecer uma série de leis e de ordens de acontecimentos de como funcionam as coisas dentro de nós, ou seja, de como a máquina humana reage às impressões externas, às palavras, às mudanças climáticas, enfim, às infinitas manifestações exteriores.

Qualquer tentativa de estudo, análise ou compreensão fora do contexto global da máquina humana, sem levar em conta todas as ligações entre os diversos centros, é perda de tempo. A própria observação de si não deve ser mecanizada, sob risco de perder toda sua utilidade. A observação de si, aqui citada, é diferente daquela “observação” que nós estamos acostumados e fazer quando “observamos” os fatos do dia-a-dia.

Quando o interessado começar a se observar deverá tentar identificar a que centro (intelectual, emocional, instintivo, motor, sexual) pertence o fenômeno, fato ou aquilo que está observando. De início poderá ser difícil diferenciar pensamento de sentimento ou emoção; de sensação de impulso motor; de impulso motor de instinto.

Somente depois de haver estudado e compreendido determinado modelo comportamental, atitude ou reação é que se deve começar a buscar a mudança ou a “autotransformação”. Não se pode mudar nada sem primeiro haver estudado detalhadamente o próprio comportamento, sem conhecer-se muito bem. Lembre-se: Transformação é possível desde que o poder superior a nossa mente intervenha eliminando os falsos valores, e nós, em seu lugar, comecemos a praticar os valores autênticos de nosso Deus Interno, conhecidos como VIRTUDES.

Um exemplo pode ilustrar melhor o que estamos tentado dizer: uma pessoa notou que é muito gulosa. Começa a lutar contra esse hábito ou vício. Se for persistente e metódica logrará vencer sua gula, através de autoanálises, estudos e reflexões.

Entretanto, se o trabalho for realizado incorretamente, em vez da compreensão da gula haverá a repressão e, com isso, sem que ela perceba, no lugar da gula surgem outros problemas; digamos que essa pessoa tenha se tornado irritável ou irritante, implicante, ou ainda fanática pela moderação. A gula foi vencida até um certo grau, mas no seu lugar surgiu outro problema. Assim, para que essas mudanças imprevistas não aconteçam é preciso um método de trabalho. Esse método consiste, pela ordem, em:

  1. Auto-observação
  2. Auto-estudo ou auto-análise (reflexão)
  3. Compreensão
  4. Auto-mudança

A Parábola do cocheiro

No Oriente é muito conhecida esta parábola. Nessa história vemos uma carruagem, um cavalo, um cocheiro e um amo. Esses 4 elementos podem estar ligados entre si, não estar ligados ou estar mal ligados.

A carruagem se liga ao cavalo, o cavalo ao cocheiro, o cocheiro ao amo. O cocheiro deve ouvir e compreender a voz do amo, além de conduzir cavalo e carruagem. O cavalo, antes de ser posto para tracionar a carruagem, deve ser treinado, para que obedeça ao comando e à voz do cocheiro. Cavalo mal atrelado solta-se em viagem e pode provocar acidente.

Assim, desses 4 elementos devem existir 3 ligações. Se uma delas apresentar defeito, o conjunto não poderá agir como conjunto, e o trabalho torna-se impossível.

O trabalho sempre deve começar pelo cocheiro, que é a nossa mente. Para ouvir a voz do amo (o Íntimo, o Ser, o Pai Interno) o cocheiro deve estar atento (processo de começar a despertar a Consciência). Além do mais deve compreender as palavras do amo (o Íntimo). Muitas vezes o amo fala numa linguagem desconhecida para o cocheiro. Então, ele deve aprender essa linguagem (simbólica) para que saiba o que fazer e para onde ir. Caso contrário ele nunca poderá cumprir a vontade do amo.

É responsabilidade do cocheiro conduzir a carruagem, atrelar e alimentar o cavalo (corpo emocional). O cocheiro tem a obrigação de zelar pelo estado de conservação da carruagem (saúde do corpo físico) porque de nada serviria ouvir e compreender as palavras do amo se a carruagem (o corpo físico) não estiver em condições de viajar. Muitas vezes, atendendo ordens do amo, o cocheiro dá ordem de partida na carruagem, mas o cavalo (emoção, sentimentos) não está atrelado ou está faminto.

Essa parábola oriental contém profundos ensinamentos. O cavalo é o corpo de desejo, nossas emoções. Se o cocheiro (a mente) não tem firmeza nas rédeas (força de vontade), o cavalo (as emoções, os sentimentos) arrasta a carruagem (o corpo) para uma viagem em círculo, isso quando não acaba caindo no abismo.

A carruagem deve seguir o cavalo. O cavalo deve obedecer ao cocheiro. O cocheiro deve cumprir as ordens do amo. Nisso há harmonia perfeita e sincronia de vontades. Essa é a ordem natural do trabalho.

Todos esses elementos, em si mesmos, podem estar perfeitamente bem e em ordem, e mesmo assim, não haver jornada. Por que? Simplesmente porque falta ligação, falta conjunto. De nada adianta ter um corpo físico saudável, emoções sob controle, pensamentos claros, compreensão da voz do amo se falta ligação entre eles. Uma pessoa que não possui ordem nesse trabalho é conduzida de baixo para cima; é como se a carruagem comandasse todos os demais elementos.

 

A mecânica humana

organizacao-mentalEm Posts anteriores tivemos oportunidade de descrever algo sobre personalidade, mente, corpo de desejos, ego e consciência. Esses pontos se complementam com o que vamos examinar em seguida.

O homem, mesmo sendo um ente mecânico, é uma criatura especial, pois é dotado da capacidade de compreender que é uma máquina ou um ente mecânico. Assim, ao dar-se conta desse processo e dependendo do cultivo de sua força de vontade, poderá deixar de ser máquina. Uma das primeiras ideias falsas que temos para eliminar ou modificar, mediante o estudo profundo de nós mesmos, é a idéia ou a crença de que somos indivíduos.

Ainda não temos verdadeira individualidade. Em realidade, somos uma coletividade disfarçada de indivíduo. Em linguagem psicológica é preciso dizer que o homem não tem apenas um ego único e integral como propôs Freud e até hoje aceitam os psicólogos modernos. Na dura realidade dos fatos diários notamos claramente que o homem é dotado de muitos egos. A cada momento somos um eu diferente.

Dito de outra forma: num dado instante somos uma pessoa, no momento seguinte já somos outra pessoa totalmente diferente da primeira e ainda num terceiro instante somos uma terceira pessoa, sem nenhuma relação com as duas primeiras. Essa sucessão de eus acontece de forma permanente e contínua e em alta velocidade. A cada mudança externa, a cada pressão proveniente do mundo exterior (e mesmo do interior) muda o eu que está no comando da máquina.

O que cria no homem a ilusão da unidade do eu e que nos leva a crer que somos sempre um mesmo eu, único e imutável é, de um lado, a integridade de nosso corpo físico; de outro lado, o nome, a memória e certos hábitos mecânicos desenvolvidos desde a infância pelos condicionamentos da educação. Porém, quando morrermos, não tendo mais a âncora do corpo, nos sentimos perdidos e sem rumo – e esse é o grande drama de quem desencarna de consciência adormecida.

Desse modo, tendo sempre as mesmas sensações físicas, ouvindo sempre sermos chamados pelo mesmo nome e tendo a capacidade de recordar fatos passados cremos ser sempre os mesmos. Infelizmente, caro leitor, temos que surpreendê-lo uma vez mais e afirmar solenemente que no atual estado humano, nós que perfazemos esta humanidade terrestre, não temos um centro permanente de consciência.

Não existe em nós uma vontade única; não existe em nós uma mente única; nem uma emoção ou sentimento permanente – porque não existe em nós um centro permanente de consciência nem uma personalidade única. Existem, sim, dezenas ou centenas de mentes; existem, sim, dezenas ou centenas de vontades; existem, sim, dezenas ou centenas de sentimentos, desejos, sonhos, ilusões, fantasias, aspirações, etc.. Em resumo: Somos uma pluralidade ambulante.

Cada pensamento, cada sentimento, cada sensação, cada desejo, cada “eu gosto” ou cada “eu não gosto”, é sempre um “eu” diferente. Todos esses “eus” não estão ligados entre si ou coordenados por algo entre si. Cada um deles, isoladamente, pode assumir o controle de um ou mais centros de consciência e manejar a máquina humana a seu bel prazer.

Para que cada um desses eus possa se manifestar e conduzir a máquina humana, depende de situações externas ou internas e de mudanças de impressões. Cada eu desencadeia mecânica e automaticamente um ou vários outros eus em associações aleatórias. Do mesmo modo como existem afinidades entre as pessoas aqui neste mundo também existem afinidades entre as dezenas ou centenas de eus que habitam nossos centros de atividade ou nossa mente.

Isso não quer dizer que haja ordem, hierarquia, sistema. Pelo contrário: o ego pluralizado é o caos dentro de nós, fazendo com que sejamos criaturas confusas e sem continuidade de propósitos; é a
coletividade dentro do indivíduo; é a mesma sociedade externa dentro do reino interno – e por isso mesmo, o que vemos no mundo externo é a exata projeção de nossa realidade interna. O mundo não é melhor porque não somos melhores internamente.

Alguns desses eus têm vínculos naturais entre si, porém, o mais comum é que eles se associem acidentalmente devido ao funcionamento mecânico da máquina ao pensar, sentir ou recordar alguma cena. Cada um desses eus representa, num dado momento, apenas uma ínfima parte de nossas funções, porém, cada um deles se crê o todo, o conjunto, o único e imutável eu.

Quando um homem diz “eu” ele tem a impressão de que fala de si como se fosse sua totalidade, mas, ainda que assim acredite, na realidade está falando apenas de um simples pensamento ou de uma simples emoção ou recordação ou fato passageiro que pode durar apenas um segundo, alguns segundos ou pior ainda, sutileza das sutilezas, uma fração de segundos.

Uma hora mais tarde — pouco mais, pouco menos — esse homem poderá ter esquecido completamente o que disse e que promessas fez e com a mesma convicção expressará outra idéia ou opinião totalmente diferente. E a cada novo dia, menos encontramos pessoas de palavra….

Com esses fatos iniciais bem poderá avaliar o estudante por que motivos, nós, seres humanos, hoje juramos amor eterno a uma causa e amanhã já não sentimos o mesmo ardor; por esse motivo os casais apaixonados trocam de amor como trocam de roupa — especialmente nos dias atuais; por esse motivo o ser humano é tão contraditório e difícil de se relacionar.

Isso tudo, embora desanimador, pode ser modificado. E aquele que se propuser a se tornar uma pessoa íntegra, dotada de um único centro de gravidade, poderá chegar lá. Ensinar a fazer isso é o propósito maior deste arcano e da gnose como um todo.

Todos esses acontecimentos descritos anteriormente acontecem dentro do quaternário inferior da máquina humana, ou seja, dentro do corpo mental, do corpo de desejos, do corpo vital e do corpo físico. E dentro desse quaternário estão localizados cinco centros psicofisiológicos, que funcionam como se fossem cinco cilindros de um motor. Esses cinco cilindros são, de acordo com sua finalidade ou função, denominados de:

  1. Centro intelectual
  2. Centro motor
  3. Centro emocional
  4. Centro instintivo
  5. Centro sexual

Funcionamento dos 5 centros

Todas as ações humanas acontecem nesses cinco centros. Existem dois centros superiores, mas esses são privilégios dos homens auto-realizados. Vale dizer: só existem naqueles que formaram seus corpos astral e mental. Na condição atual esses cinco centros psicofisiológicos funcionam desequilibradamente. Com isso queremos dizer que esses centros não funcionam como devem. O resultado disso é a sua ineficiência ou disfunção e ainda um consumo excessivo de energias.

Esses cinco centros podem ser visualizados como cinco cérebros ou cinco centros de consciência, dos quais apenas três têm funções independentes: o intelectual, o emocional e o motor. Os centros
instintivo e sexual trabalham quase sempre conjugados com o cérebro-motor. Com base nessa realidade o homem é descrito por alguns mestres da psicologia do quarto caminho como sendo um edifício de três andares:

  1. no piso superior localiza-se o centro intelectual
  2. no piso intermediário localiza-se o centro emocional
  3. no piso inferior estão os centros motor, instintivo e sexual.

Os cinco centros trabalham com energias diferentes. Não obstante, muitas vezes roubam energia de outro, mesmo que essa energia seja inadequada para seu funcionamento. Podemos ser mais exatos ainda se dissermos que os centros, atualmente, desperdiçam toda a energia que tem à sua disposição. Esse desperdício acontece, dissemos, devido ao desequilíbrio da máquina, e isso faz com que um centro se ocupe de funções relativas ao outro.

Em toda essa questão o centro mais prejudicado é o centro sexual, pois é dele que provém toda a energia da máquina humana. Para que haja conexão entre os cinco centros inferiores e os dois superiores é necessário equilibrar as funções dos primeiros, levando-os a trabalhar com sua própria energia e a cumprir exclusivamente as funções que lhe são próprias.

O centro intelectual existe para elaborar e expressar o pensamento. O centro motor, para proporcionar todos os movimentos que a máquina humana necessita para se manifestar e cumprir suas obrigações. O centro emocional sintetiza o sentir, as emoções, os desejos.

O centro instintivo cuida da sobrevivência, regulando as funções endocrinológicas, as batidas do coração, o funcionamento dos intestinos, a circulação do sangue, a respiração, etc.. Por último, o centro sexual providencia o abastecimento energético de toda a máquina, além, é claro de se responsabilizar pela continuidade da vida.

O centro sexual resume a própria capacidade de geração, regeneração e de nascimentos ou cristalizações internas. Este tema, a Alquimia, será abordado em um futuro arcano.

Na condição humana atual a máquina, desequilibrada que está, não só funciona abaixo do normal, rendendo muito menos do que pode, como ainda cada centro interfere no outro. Pior ainda: dentro de um mesmo centro há aplicação errada de esforços. Por exemplo: o pensamento não pode compreender os matizes do sentimento. Entretanto, muitas vezes somos tentados a entender racionalmente o que o outro sente em dado momento. Outro exemplo: o centro intelectual tem a função de estudar, ler, abstrair ou elaborar ideias ou conceitos.

Quantas vezes somos surpreendidos, quando estamos lendo um livro, com o pensamento a vagar, não obstante continuamos lendo. Quer dizer: nesses momentos, nosso centro motor se apossou da função de “ler” (leitura mecânica).

Amortecedores, máscaras e verniz social

Um dos motivos da sobrevivência e continuidade dos “eus” sãos os amortecedores. Normalmente, eles são criados de forma involuntária pelo homem. Este processo começa na infância, quando somos surpreendidos fazendo “artes” de criança. Como nosso pai ou nossa mãe “não gostam” que façamos isso ou aquilo, “para ocultar” nosso “erro”, negamos. Assim tem início o processo de defesa, de mentiras, que com o tempo mascara a realidade, atenuando os impactos em nossa vida.

Hoje, sem as máscaras da mentira, o convívio social seria impossível. Usamos máscaras e mentiras para esconder nossas contradições, nossas próprias mentiras, nossas invejas, nossos ódios, nossos desejos de vingança, etc. Se há algo que não somos hoje, por absoluta incapacidade de sê-lo, é honestos. Nem conosco mesmos nem com os demais.

As crianças sim, no começo da vida, são 100% honestas. Por isso dizem coisas que surpreendem os adultos, embaraçando-os diante de estranhos ou de amigos, muitas  vezes. É porque as crianças ainda não formaram os amortecedores [ = processos de mentiras ].

Um homem sem amortecedores seria (é) considerado louco, debiloide ou infantil. O louco não tem amortecedores, como as crianças e os animais que dizem e fazem o que querem. Os Mestres de Sabedoria também não têm amortecedores, mas, como são escolados pela vida, sabem calar-se prudentemente. Por isso não são compreendidos pelo homem atual, que vê nos Mestres, loucos ou desequilibrados sociais.

De um modo ou de outro, para se sentir seguro e tranquilo, um homem, na condição errada em que hoje vive neste mundo, necessita de amortecedores, verdadeiro ópio que o mantém escravo das aparências e das opiniões alheias.

Os amortecedores, as máscaras, o verniz social impedem qualquer tipo de vida psíquica [espiritual] verdadeira. Não há nem pode haver crescimento espiritual enquanto vivermos essa farsa. Portanto, a primeira decisão que precisamos tomar é acabar com o processo da mentira e começar a ser honesto consigo mesmo. Se o Pai é a Verdade e se buscamos a Verdade para nos libertarmos é preciso acabar com as mentiras. Mentimos aos demais porque não temos consciência que mentimos a nós mesmos o tempo todo. E nem nos damos conta de nossas incoerências e contradições.

Enquanto houver máscaras, mentiras e farsas todos os choques proporcionados pela vida para o despertar da consciência, resultarão inúteis, pois serão atenuados pela “interpretação”, pelo “amortecimento” e assim, enquanto você, como qualquer um de nós, tiver esse mecanismo bem ativo (mas inconsciente), estaremos impossibilitados de sentir a nossa própria consciência. O drama maior dessa triste realidade é que não poderá haver Iluminação, nem avanço espiritual verdadeiro.

Resumindo, uma Escola que não ensine esta classe de doutrina jamais poderá levar ninguém ao autêntico “autoconhecimento”.

A máquina humana e sua evolução

imagem3Há mais de 40 anos Ouspenski, o notável discípulo de Gurdjieff, escrevia: “Nunca no curso da História a psicologia se encontrou em nível tão baixo”, tendo perdido todo contato com a sua origem e todo seu sentido a tal ponto que hoje é difícil precisar o que é psicologia, o que ela estuda e para que serve.

A psicologia é possivelmente uma das mais antigas ciências humanas. Só que sua essência foi totalmente esquecida. Logicamente que no passado ela não era conhecida por esse nome. Durante muitos séculos a psicologia foi chamada de filosofia.

Na Índia, muitas das atuais formas de Yoga são pura psicologia. Os ensinamentos sufis, que para muitos são tidos como religião, na realidade é pura psicologia. A philokalia ainda hoje estudada pelos monges da Igreja Ortodoxa Oriental é um autêntico tratado psicológico. Isso que o esoterismo denomina de Mistérios também possui ampla e profunda base psicológica, a qual pode ser detectada em diversos símbolos.

Quando se investiga a história do conhecimento humano percebe-se com toda clareza que a psicologia tem origens sagradas, religiosas. Prova disso é que, originalmente, “psicologia é o estudo da alma” (e não do comportamento, como se aprende hoje). Modernamente, a psicologia se limita a estudar e ajustar fenômenos comportamentais não dando a mínima importância aos aspectos espirituais, anímicos ou ontológicos, como se fosse possível haver uma autêntica ciência psicológica sem esses elementos humanos essenciais. Na realidade, trata-se de uma psicologia ateísta.

A psicologia que vamos apresentar aqui parte do princípio que o homem atual é um ser mecânico, incompleto, inacabado e multifacetado que precisa re-evoluir e se aperfeiçoar até atingir o estado humano autêntico. Assim, uma das primeiras dificuldades que enfrentamos é de ordem semântica; precisamos definir se estudamos “psicologia humana” ou “mecânica humana”.

Portanto, para deixar bem claro, ao adotarmos a psicologia que estuda a evolução possível do homem, queremos dizer que o homem, como hoje se encontra, ainda não é uma criatura acabada. Isso significa que há inúmeras possibilidades que precisam ser desenvolvidas, trabalhadas e manifestadas neste ser mecânico erroneamente chamado “homem” para que, depois, efetivamente possa se transformar num homem verdadeiro.

Muitos acreditam que essa evolução se processa de forma mecânica quando, de fato, essa evolução só é possível mediante condições bem definidas, esforços especiais e até mesmo uma intensa ajuda da parte daqueles que já passaram por esse caminho.

Para onde precisa evoluir o homem

Enquanto acreditarmos e aceitarmos a idéia que o atual ser humano já é uma criatura superior, um produto completo e perfeito da natureza, nenhuma nova mudança substancial será possível. Quantas vezes somos testemunhas de expressões do tipo “o ser humano é muito complicado”, “é muito difícil lidar com o ser humano”, “o homem não presta”, etc.. Implicitamente essas pessoas gostariam que seus semelhantes (nós) fossem diferentes, menos complicadas, mais compreensíveis.

Perguntamos:

  • É possível mudar?
  • Todos podem ser diferentes?
  • Nesse caso, quais os valores, qualidades e características que devem sofrer modificações?
  • Em que direção e de que modo as mudanças devem ocorrer?
  • Qual o resultado final de todas as mudanças possíveis no homem?

Veja, caro leitor, quantas questões aparecem para discussão. Admitindo-se que você não esteja contente consigo mesmo, que sinta em seu interior impulsos de mudanças, que aspira alcançar outros níveis de consciência, que anela até mesmo uma alteração psicoquímica — o que precisa ser feito?

Todo homem, para mudar, terá que anelar essa mudança psicológica: Se uma pessoa não desejar, não querer com vontade a modificação, ela não irá ocorrer. Além disso, é preciso fazer esforços voluntários e conscientes nesse sentido, pois, ninguém pode obrigar ninguém a mudar se ele não quer a mudança.

Quando uma pessoa se torna diferente adquire uma série de qualidades e valores novos. Entretanto, falar dessas qualidades ou desses poderes ou valores internos sem saber de onde eles vêm e como aparecem não ajuda em nada. O desconhecimento sobre as possibilidades do homem é muito grande, fato que demonstra cabalmente que o homem não se conhece.

Na verdade todos nós temos ideias falsas sobre nós. É aceito universalmente que todos somos filhos de Deus. Ora, isso indica que temos as mesmas possibilidades divinas dentro de nós. Mas, se já nos julgamos Devas, Avatares, Anjos ou Seres de Luz, certamente nada mudará em nós porque isso é uma idéia falsa. Indo mais longe ainda podemos dizer que toda mudança deve começar pela aquisição das capacidades que já acreditamos possuir. Referimo-nos aqui à capacidade de fazer.

Hoje tudo acontece, embora o homem julgue que faz. Isso é necessário porque não pode haver nenhum desenvolvimento enquanto houver mentiras sobre a gente mesmo. Para mudar, para ser diferente, para evoluir, todo homem necessita, antes de tudo, tornar-se consciente de si mesmo, de suas limitações e de sua incapacidade de fazer acontecer ou de sustentar um pensamento por muito tempo. Numa frase: somos criaturas sem um centro permanente de gravidade, e sem um centro permanente de gravidade ou de consciência pouco podemos realizar.

Porque ainda não somos seres perfeitos

A idéia de um homem-máquina não é nova. Já no século XIX psicofisiologistas acreditavam que o homem seria incapaz de fazer qualquer movimento se não recebesse impressões ou impulsos externos.

O principal motivo da mecanicidade humana está na sua incapacidade de levar adiante decisões e propósitos pelo simples fato de não possuir um único centro de gravidade ou um único centro de consciência.

Por causa disso, ainda que pensemos o contrário ou nos julguemos detentores de uma capacidade de fazer e empreender coisas, o fato é que, de momento a momento, algo dentro de nós faz isso acontecer sem a interveniência da consciência. Ou qualquer acontecimento é pretexto para abandonarmos determinada empreitada.

Dentro da atual criatura humana as coisas acontecem como fora, na natureza. É como chover, nevar, ventar, esquentar, trovejar, etc.. Nós temos a falsa impressão de fazer as coisas porque não temos palavras que exprimam melhor o que acontece conosco. Assim dizemos que o homem “guerreia”, “trabalha”, “pensa”, “lê”, “escreve”, “anda”, “detesta”, “ama”, “odeia”, “quer”, etc. Mas, o homem não pode pensar porque não é ele que pensa (pensam por ele); uma pessoa não pode andar porque assim decidiu (alguém lhe diz para andar); um homem quando “deseja” de fato não está desejando (estão desejando), e assim por diante.

Perguntemos:

  • Quem quer um nova casa?
  • Quem quer aquele carro esportivo?
  • Quem quer fazer amor com a vizinha do décimo andar?
  • Quem quer comer doce depois de uma churrascada?
  • Quem quer andar sempre na moda?

As coisas acontecem em nossa mente de forma mecânica. Por isso não temos consciência. As crianças são autoconscientes. Com o tempo, devido ao processo educacional, elas acabam perdendo sua autoconsciência, trocando-a por um piloto automático.

E é esse “piloto automático” que guia nossos passos pelo resto da vida. Raras vezes paramos para nos perguntar sobre a causa ou razões de estarmos agindo de uma determinada maneira. Poucos se dão conta, durante a vida, de suas cegueiras, de seu adormecimento, de sua inconsciência.

Dura realidade essa em que temos que declarar solenemente que o homem não só dorme quando está em seu leito como, também, dorme enquanto está guiando carros, trabalhando, andando pelas ruas, comendo, falando ao telefone, fazendo negócios, vendo televisão, falando com os amigos, etc.

Para que uma pessoa deixe de reagir às impressões externas e internas, deverá despertar sua consciência. O que é a consciência, por que ela dorme e como podemos despertá-la, iremos ver mais adiante. Até lá necessitamos expandir mais nosso conhecimento acerca da mecanicidade humana, suas causas, consequências e, acima de tudo, estabelecer as bases para uma mudança, para sair desse estado de adormecimento.