Entre Deus e o mundo

Era com admiração que me recordava diligentemente do longo tempo decorrido desde meus dezoito anos, quando comecei a arder no desejo da sabedoria, propondo-me, quando a achasse, abandonar todas as vãs esperanças e enganosas loucuras passionais. Chegado, porém aos trinta anos, ainda continuava preso ao mesmo lodaçal, ávido em usufruir dos bens presentes, que me fugiam e me dissipavam.  Entretanto, dizia: amanhã hei de encontrá-la; a verdade aparecerá clara, e a abraçarei. Faustosa virá, e me dará todas as explicações. Ó grandes varões da Academia: é verdade que não podemos compreender nenhuma coisa com certeza para a conduto de nossa vida? Mas não! Procuremos com mais diligencia, sem desesperarmos. Já não me parecem absurdas nas Escrituras as coisas que antes me pareciam tais: posso compreende-las de modo diferente, mais razoável. Fixarei, pois, os pés naquele degrau em que me colocaram meus pais quando criança, até que encontres a verdade em sua evidência. Mas onde e quando busca-la? Me falta tempo para ler. E além do mais, onde encontrar os livros? E onde ou quando poderei compra-los? A quem hei de pedi-los? Repartamos o tempo, reservemos algumas horas para a salvação da alma. Nasceu uma grande esperança: a fé dogmática não ensina o que pensamos, e eu a criticava levianamente. Seus doutores tem como crime limitar Deus a figura humana; e eu ainda hesito em bater para que nos sejam reveladas as outras verdades! As horas da manhã eu dedico aos alunos; mas que faço das outras? Por que não as consagro a essa busca? Mas quando então, visitar os amigos poderosos, de cujos favores necessito? Quando preparar as lições que os alunos me pagam? Quando reparar as forças do espírito,  descansando em algo aprazível? Perca-se tudo! Deixemos essas coisas vãs e faceis. Entreguemo-nos por completo a busca da verdade. A vida é miserável, e a hora da morte, incerta. Se esta me surpreender de  repente, em que estado sairei do mundo? E onde aprenderei o que deixei de aprender aqui? Não serei antes castigado por essa negligência? Mas, e se a própria morte cortar e for o fim a todo cuidado e sentimento? Também seria conveniente investigar este ponto. Mas afastemos tais pensamentos! Não é por acaso nem é em vão que se difunde por todo o mundo a fé cristã, com grande prestigio. Deus jamais teria criado tantas e tais coisas por nós, se com a morte do corpo terminasse também a vida da alma. Porque hesitar, pois, em abandonar as esperanças do mundo para me consagrar a busca de Deus e da bem-aventurança? Mas espere um pouco! Os bens mundanos também tem seus deleites, que não são pequenos. Não devo deixá-los sem pensar; seria feio ter de voltar a eles. Eis-me prestes a conseguir um  cargo de honra. Que mais posso desejar? Tenho uma multidão de amigos poderosos. Sem me apressar muito poderia obter, no mínimo, uma liderança. Poderia então casar-me com uma mulher formosa e de fortuna, para que meus gastos não fossem muito pesados. Aqui estariam os limites de meus desejos. Muitos homens grandes e dignos de imitação, apesar de casados, dedicaram-se ao estudo da sabedoria. Enquanto assim pensava, e os ventos cambiantes impeliam meu coração de um lado para outro, o tempo passava, e eu retardava minha conversão ao Senhor. Adiava de dia para dia o viver em ti, morrendo, todavia, todos os dias em mim mesmo. Amando a vida feliz, temia busca-la em sua morada; procurava-a fugindo dela! Pensava que seria mui desgraçado se me visse privado das caricias da mulher. Não pensava ainda no remédio de tua misericórdia, que cura esta enfermidade, porque nunca o havia experimentado. Julgava que a continência fosse obra de nossa própria força, que eu pensava não ter. Eu era bastante néscio para ignorar que ninguém, como esta escrito, é casto sem que tu lhes de a força. Essa força certamente me darias se eu ferisse teus ouvidos com os gemidos de minha alma, e com fé firme lançasse em ti meus cuidados.

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