A mecânica humana

organizacao-mentalEm Posts anteriores tivemos oportunidade de descrever algo sobre personalidade, mente, corpo de desejos, ego e consciência. Esses pontos se complementam com o que vamos examinar em seguida.

O homem, mesmo sendo um ente mecânico, é uma criatura especial, pois é dotado da capacidade de compreender que é uma máquina ou um ente mecânico. Assim, ao dar-se conta desse processo e dependendo do cultivo de sua força de vontade, poderá deixar de ser máquina. Uma das primeiras ideias falsas que temos para eliminar ou modificar, mediante o estudo profundo de nós mesmos, é a idéia ou a crença de que somos indivíduos.

Ainda não temos verdadeira individualidade. Em realidade, somos uma coletividade disfarçada de indivíduo. Em linguagem psicológica é preciso dizer que o homem não tem apenas um ego único e integral como propôs Freud e até hoje aceitam os psicólogos modernos. Na dura realidade dos fatos diários notamos claramente que o homem é dotado de muitos egos. A cada momento somos um eu diferente.

Dito de outra forma: num dado instante somos uma pessoa, no momento seguinte já somos outra pessoa totalmente diferente da primeira e ainda num terceiro instante somos uma terceira pessoa, sem nenhuma relação com as duas primeiras. Essa sucessão de eus acontece de forma permanente e contínua e em alta velocidade. A cada mudança externa, a cada pressão proveniente do mundo exterior (e mesmo do interior) muda o eu que está no comando da máquina.

O que cria no homem a ilusão da unidade do eu e que nos leva a crer que somos sempre um mesmo eu, único e imutável é, de um lado, a integridade de nosso corpo físico; de outro lado, o nome, a memória e certos hábitos mecânicos desenvolvidos desde a infância pelos condicionamentos da educação. Porém, quando morrermos, não tendo mais a âncora do corpo, nos sentimos perdidos e sem rumo – e esse é o grande drama de quem desencarna de consciência adormecida.

Desse modo, tendo sempre as mesmas sensações físicas, ouvindo sempre sermos chamados pelo mesmo nome e tendo a capacidade de recordar fatos passados cremos ser sempre os mesmos. Infelizmente, caro leitor, temos que surpreendê-lo uma vez mais e afirmar solenemente que no atual estado humano, nós que perfazemos esta humanidade terrestre, não temos um centro permanente de consciência.

Não existe em nós uma vontade única; não existe em nós uma mente única; nem uma emoção ou sentimento permanente – porque não existe em nós um centro permanente de consciência nem uma personalidade única. Existem, sim, dezenas ou centenas de mentes; existem, sim, dezenas ou centenas de vontades; existem, sim, dezenas ou centenas de sentimentos, desejos, sonhos, ilusões, fantasias, aspirações, etc.. Em resumo: Somos uma pluralidade ambulante.

Cada pensamento, cada sentimento, cada sensação, cada desejo, cada “eu gosto” ou cada “eu não gosto”, é sempre um “eu” diferente. Todos esses “eus” não estão ligados entre si ou coordenados por algo entre si. Cada um deles, isoladamente, pode assumir o controle de um ou mais centros de consciência e manejar a máquina humana a seu bel prazer.

Para que cada um desses eus possa se manifestar e conduzir a máquina humana, depende de situações externas ou internas e de mudanças de impressões. Cada eu desencadeia mecânica e automaticamente um ou vários outros eus em associações aleatórias. Do mesmo modo como existem afinidades entre as pessoas aqui neste mundo também existem afinidades entre as dezenas ou centenas de eus que habitam nossos centros de atividade ou nossa mente.

Isso não quer dizer que haja ordem, hierarquia, sistema. Pelo contrário: o ego pluralizado é o caos dentro de nós, fazendo com que sejamos criaturas confusas e sem continuidade de propósitos; é a
coletividade dentro do indivíduo; é a mesma sociedade externa dentro do reino interno – e por isso mesmo, o que vemos no mundo externo é a exata projeção de nossa realidade interna. O mundo não é melhor porque não somos melhores internamente.

Alguns desses eus têm vínculos naturais entre si, porém, o mais comum é que eles se associem acidentalmente devido ao funcionamento mecânico da máquina ao pensar, sentir ou recordar alguma cena. Cada um desses eus representa, num dado momento, apenas uma ínfima parte de nossas funções, porém, cada um deles se crê o todo, o conjunto, o único e imutável eu.

Quando um homem diz “eu” ele tem a impressão de que fala de si como se fosse sua totalidade, mas, ainda que assim acredite, na realidade está falando apenas de um simples pensamento ou de uma simples emoção ou recordação ou fato passageiro que pode durar apenas um segundo, alguns segundos ou pior ainda, sutileza das sutilezas, uma fração de segundos.

Uma hora mais tarde — pouco mais, pouco menos — esse homem poderá ter esquecido completamente o que disse e que promessas fez e com a mesma convicção expressará outra idéia ou opinião totalmente diferente. E a cada novo dia, menos encontramos pessoas de palavra….

Com esses fatos iniciais bem poderá avaliar o estudante por que motivos, nós, seres humanos, hoje juramos amor eterno a uma causa e amanhã já não sentimos o mesmo ardor; por esse motivo os casais apaixonados trocam de amor como trocam de roupa — especialmente nos dias atuais; por esse motivo o ser humano é tão contraditório e difícil de se relacionar.

Isso tudo, embora desanimador, pode ser modificado. E aquele que se propuser a se tornar uma pessoa íntegra, dotada de um único centro de gravidade, poderá chegar lá. Ensinar a fazer isso é o propósito maior deste arcano e da gnose como um todo.

Todos esses acontecimentos descritos anteriormente acontecem dentro do quaternário inferior da máquina humana, ou seja, dentro do corpo mental, do corpo de desejos, do corpo vital e do corpo físico. E dentro desse quaternário estão localizados cinco centros psicofisiológicos, que funcionam como se fossem cinco cilindros de um motor. Esses cinco cilindros são, de acordo com sua finalidade ou função, denominados de:

  1. Centro intelectual
  2. Centro motor
  3. Centro emocional
  4. Centro instintivo
  5. Centro sexual

Funcionamento dos 5 centros

Todas as ações humanas acontecem nesses cinco centros. Existem dois centros superiores, mas esses são privilégios dos homens auto-realizados. Vale dizer: só existem naqueles que formaram seus corpos astral e mental. Na condição atual esses cinco centros psicofisiológicos funcionam desequilibradamente. Com isso queremos dizer que esses centros não funcionam como devem. O resultado disso é a sua ineficiência ou disfunção e ainda um consumo excessivo de energias.

Esses cinco centros podem ser visualizados como cinco cérebros ou cinco centros de consciência, dos quais apenas três têm funções independentes: o intelectual, o emocional e o motor. Os centros
instintivo e sexual trabalham quase sempre conjugados com o cérebro-motor. Com base nessa realidade o homem é descrito por alguns mestres da psicologia do quarto caminho como sendo um edifício de três andares:

  1. no piso superior localiza-se o centro intelectual
  2. no piso intermediário localiza-se o centro emocional
  3. no piso inferior estão os centros motor, instintivo e sexual.

Os cinco centros trabalham com energias diferentes. Não obstante, muitas vezes roubam energia de outro, mesmo que essa energia seja inadequada para seu funcionamento. Podemos ser mais exatos ainda se dissermos que os centros, atualmente, desperdiçam toda a energia que tem à sua disposição. Esse desperdício acontece, dissemos, devido ao desequilíbrio da máquina, e isso faz com que um centro se ocupe de funções relativas ao outro.

Em toda essa questão o centro mais prejudicado é o centro sexual, pois é dele que provém toda a energia da máquina humana. Para que haja conexão entre os cinco centros inferiores e os dois superiores é necessário equilibrar as funções dos primeiros, levando-os a trabalhar com sua própria energia e a cumprir exclusivamente as funções que lhe são próprias.

O centro intelectual existe para elaborar e expressar o pensamento. O centro motor, para proporcionar todos os movimentos que a máquina humana necessita para se manifestar e cumprir suas obrigações. O centro emocional sintetiza o sentir, as emoções, os desejos.

O centro instintivo cuida da sobrevivência, regulando as funções endocrinológicas, as batidas do coração, o funcionamento dos intestinos, a circulação do sangue, a respiração, etc.. Por último, o centro sexual providencia o abastecimento energético de toda a máquina, além, é claro de se responsabilizar pela continuidade da vida.

O centro sexual resume a própria capacidade de geração, regeneração e de nascimentos ou cristalizações internas. Este tema, a Alquimia, será abordado em um futuro arcano.

Na condição humana atual a máquina, desequilibrada que está, não só funciona abaixo do normal, rendendo muito menos do que pode, como ainda cada centro interfere no outro. Pior ainda: dentro de um mesmo centro há aplicação errada de esforços. Por exemplo: o pensamento não pode compreender os matizes do sentimento. Entretanto, muitas vezes somos tentados a entender racionalmente o que o outro sente em dado momento. Outro exemplo: o centro intelectual tem a função de estudar, ler, abstrair ou elaborar ideias ou conceitos.

Quantas vezes somos surpreendidos, quando estamos lendo um livro, com o pensamento a vagar, não obstante continuamos lendo. Quer dizer: nesses momentos, nosso centro motor se apossou da função de “ler” (leitura mecânica).

Amortecedores, máscaras e verniz social

Um dos motivos da sobrevivência e continuidade dos “eus” sãos os amortecedores. Normalmente, eles são criados de forma involuntária pelo homem. Este processo começa na infância, quando somos surpreendidos fazendo “artes” de criança. Como nosso pai ou nossa mãe “não gostam” que façamos isso ou aquilo, “para ocultar” nosso “erro”, negamos. Assim tem início o processo de defesa, de mentiras, que com o tempo mascara a realidade, atenuando os impactos em nossa vida.

Hoje, sem as máscaras da mentira, o convívio social seria impossível. Usamos máscaras e mentiras para esconder nossas contradições, nossas próprias mentiras, nossas invejas, nossos ódios, nossos desejos de vingança, etc. Se há algo que não somos hoje, por absoluta incapacidade de sê-lo, é honestos. Nem conosco mesmos nem com os demais.

As crianças sim, no começo da vida, são 100% honestas. Por isso dizem coisas que surpreendem os adultos, embaraçando-os diante de estranhos ou de amigos, muitas  vezes. É porque as crianças ainda não formaram os amortecedores [ = processos de mentiras ].

Um homem sem amortecedores seria (é) considerado louco, debiloide ou infantil. O louco não tem amortecedores, como as crianças e os animais que dizem e fazem o que querem. Os Mestres de Sabedoria também não têm amortecedores, mas, como são escolados pela vida, sabem calar-se prudentemente. Por isso não são compreendidos pelo homem atual, que vê nos Mestres, loucos ou desequilibrados sociais.

De um modo ou de outro, para se sentir seguro e tranquilo, um homem, na condição errada em que hoje vive neste mundo, necessita de amortecedores, verdadeiro ópio que o mantém escravo das aparências e das opiniões alheias.

Os amortecedores, as máscaras, o verniz social impedem qualquer tipo de vida psíquica [espiritual] verdadeira. Não há nem pode haver crescimento espiritual enquanto vivermos essa farsa. Portanto, a primeira decisão que precisamos tomar é acabar com o processo da mentira e começar a ser honesto consigo mesmo. Se o Pai é a Verdade e se buscamos a Verdade para nos libertarmos é preciso acabar com as mentiras. Mentimos aos demais porque não temos consciência que mentimos a nós mesmos o tempo todo. E nem nos damos conta de nossas incoerências e contradições.

Enquanto houver máscaras, mentiras e farsas todos os choques proporcionados pela vida para o despertar da consciência, resultarão inúteis, pois serão atenuados pela “interpretação”, pelo “amortecimento” e assim, enquanto você, como qualquer um de nós, tiver esse mecanismo bem ativo (mas inconsciente), estaremos impossibilitados de sentir a nossa própria consciência. O drama maior dessa triste realidade é que não poderá haver Iluminação, nem avanço espiritual verdadeiro.

Resumindo, uma Escola que não ensine esta classe de doutrina jamais poderá levar ninguém ao autêntico “autoconhecimento”.

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