A máquina humana e sua evolução

imagem3Há mais de 40 anos Ouspenski, o notável discípulo de Gurdjieff, escrevia: “Nunca no curso da História a psicologia se encontrou em nível tão baixo”, tendo perdido todo contato com a sua origem e todo seu sentido a tal ponto que hoje é difícil precisar o que é psicologia, o que ela estuda e para que serve.

A psicologia é possivelmente uma das mais antigas ciências humanas. Só que sua essência foi totalmente esquecida. Logicamente que no passado ela não era conhecida por esse nome. Durante muitos séculos a psicologia foi chamada de filosofia.

Na Índia, muitas das atuais formas de Yoga são pura psicologia. Os ensinamentos sufis, que para muitos são tidos como religião, na realidade é pura psicologia. A philokalia ainda hoje estudada pelos monges da Igreja Ortodoxa Oriental é um autêntico tratado psicológico. Isso que o esoterismo denomina de Mistérios também possui ampla e profunda base psicológica, a qual pode ser detectada em diversos símbolos.

Quando se investiga a história do conhecimento humano percebe-se com toda clareza que a psicologia tem origens sagradas, religiosas. Prova disso é que, originalmente, “psicologia é o estudo da alma” (e não do comportamento, como se aprende hoje). Modernamente, a psicologia se limita a estudar e ajustar fenômenos comportamentais não dando a mínima importância aos aspectos espirituais, anímicos ou ontológicos, como se fosse possível haver uma autêntica ciência psicológica sem esses elementos humanos essenciais. Na realidade, trata-se de uma psicologia ateísta.

A psicologia que vamos apresentar aqui parte do princípio que o homem atual é um ser mecânico, incompleto, inacabado e multifacetado que precisa re-evoluir e se aperfeiçoar até atingir o estado humano autêntico. Assim, uma das primeiras dificuldades que enfrentamos é de ordem semântica; precisamos definir se estudamos “psicologia humana” ou “mecânica humana”.

Portanto, para deixar bem claro, ao adotarmos a psicologia que estuda a evolução possível do homem, queremos dizer que o homem, como hoje se encontra, ainda não é uma criatura acabada. Isso significa que há inúmeras possibilidades que precisam ser desenvolvidas, trabalhadas e manifestadas neste ser mecânico erroneamente chamado “homem” para que, depois, efetivamente possa se transformar num homem verdadeiro.

Muitos acreditam que essa evolução se processa de forma mecânica quando, de fato, essa evolução só é possível mediante condições bem definidas, esforços especiais e até mesmo uma intensa ajuda da parte daqueles que já passaram por esse caminho.

Para onde precisa evoluir o homem

Enquanto acreditarmos e aceitarmos a idéia que o atual ser humano já é uma criatura superior, um produto completo e perfeito da natureza, nenhuma nova mudança substancial será possível. Quantas vezes somos testemunhas de expressões do tipo “o ser humano é muito complicado”, “é muito difícil lidar com o ser humano”, “o homem não presta”, etc.. Implicitamente essas pessoas gostariam que seus semelhantes (nós) fossem diferentes, menos complicadas, mais compreensíveis.

Perguntamos:

  • É possível mudar?
  • Todos podem ser diferentes?
  • Nesse caso, quais os valores, qualidades e características que devem sofrer modificações?
  • Em que direção e de que modo as mudanças devem ocorrer?
  • Qual o resultado final de todas as mudanças possíveis no homem?

Veja, caro leitor, quantas questões aparecem para discussão. Admitindo-se que você não esteja contente consigo mesmo, que sinta em seu interior impulsos de mudanças, que aspira alcançar outros níveis de consciência, que anela até mesmo uma alteração psicoquímica — o que precisa ser feito?

Todo homem, para mudar, terá que anelar essa mudança psicológica: Se uma pessoa não desejar, não querer com vontade a modificação, ela não irá ocorrer. Além disso, é preciso fazer esforços voluntários e conscientes nesse sentido, pois, ninguém pode obrigar ninguém a mudar se ele não quer a mudança.

Quando uma pessoa se torna diferente adquire uma série de qualidades e valores novos. Entretanto, falar dessas qualidades ou desses poderes ou valores internos sem saber de onde eles vêm e como aparecem não ajuda em nada. O desconhecimento sobre as possibilidades do homem é muito grande, fato que demonstra cabalmente que o homem não se conhece.

Na verdade todos nós temos ideias falsas sobre nós. É aceito universalmente que todos somos filhos de Deus. Ora, isso indica que temos as mesmas possibilidades divinas dentro de nós. Mas, se já nos julgamos Devas, Avatares, Anjos ou Seres de Luz, certamente nada mudará em nós porque isso é uma idéia falsa. Indo mais longe ainda podemos dizer que toda mudança deve começar pela aquisição das capacidades que já acreditamos possuir. Referimo-nos aqui à capacidade de fazer.

Hoje tudo acontece, embora o homem julgue que faz. Isso é necessário porque não pode haver nenhum desenvolvimento enquanto houver mentiras sobre a gente mesmo. Para mudar, para ser diferente, para evoluir, todo homem necessita, antes de tudo, tornar-se consciente de si mesmo, de suas limitações e de sua incapacidade de fazer acontecer ou de sustentar um pensamento por muito tempo. Numa frase: somos criaturas sem um centro permanente de gravidade, e sem um centro permanente de gravidade ou de consciência pouco podemos realizar.

Porque ainda não somos seres perfeitos

A idéia de um homem-máquina não é nova. Já no século XIX psicofisiologistas acreditavam que o homem seria incapaz de fazer qualquer movimento se não recebesse impressões ou impulsos externos.

O principal motivo da mecanicidade humana está na sua incapacidade de levar adiante decisões e propósitos pelo simples fato de não possuir um único centro de gravidade ou um único centro de consciência.

Por causa disso, ainda que pensemos o contrário ou nos julguemos detentores de uma capacidade de fazer e empreender coisas, o fato é que, de momento a momento, algo dentro de nós faz isso acontecer sem a interveniência da consciência. Ou qualquer acontecimento é pretexto para abandonarmos determinada empreitada.

Dentro da atual criatura humana as coisas acontecem como fora, na natureza. É como chover, nevar, ventar, esquentar, trovejar, etc.. Nós temos a falsa impressão de fazer as coisas porque não temos palavras que exprimam melhor o que acontece conosco. Assim dizemos que o homem “guerreia”, “trabalha”, “pensa”, “lê”, “escreve”, “anda”, “detesta”, “ama”, “odeia”, “quer”, etc. Mas, o homem não pode pensar porque não é ele que pensa (pensam por ele); uma pessoa não pode andar porque assim decidiu (alguém lhe diz para andar); um homem quando “deseja” de fato não está desejando (estão desejando), e assim por diante.

Perguntemos:

  • Quem quer um nova casa?
  • Quem quer aquele carro esportivo?
  • Quem quer fazer amor com a vizinha do décimo andar?
  • Quem quer comer doce depois de uma churrascada?
  • Quem quer andar sempre na moda?

As coisas acontecem em nossa mente de forma mecânica. Por isso não temos consciência. As crianças são autoconscientes. Com o tempo, devido ao processo educacional, elas acabam perdendo sua autoconsciência, trocando-a por um piloto automático.

E é esse “piloto automático” que guia nossos passos pelo resto da vida. Raras vezes paramos para nos perguntar sobre a causa ou razões de estarmos agindo de uma determinada maneira. Poucos se dão conta, durante a vida, de suas cegueiras, de seu adormecimento, de sua inconsciência.

Dura realidade essa em que temos que declarar solenemente que o homem não só dorme quando está em seu leito como, também, dorme enquanto está guiando carros, trabalhando, andando pelas ruas, comendo, falando ao telefone, fazendo negócios, vendo televisão, falando com os amigos, etc.

Para que uma pessoa deixe de reagir às impressões externas e internas, deverá despertar sua consciência. O que é a consciência, por que ela dorme e como podemos despertá-la, iremos ver mais adiante. Até lá necessitamos expandir mais nosso conhecimento acerca da mecanicidade humana, suas causas, consequências e, acima de tudo, estabelecer as bases para uma mudança, para sair desse estado de adormecimento.

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