Junto ao Mestre no Paraíso

No gólgota estas foram as palavras do Sagrado Mestre Jesus ao bom ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso”.

Não podemos pensar no tempo como algo alheio ao presente momento. Tudo que é neste momento encerra a realidade de tudo o que já foi e que será. O Passado pode ser alterado por meio do presente momento (em suas consequências presentes em nós) e o futuro preparado por meio deste mesmo instante eterno que nunca se esgota.

Tudo que o homem hoje é, é pois o resultado deste constante acúmulo de momentos que já viveu. Dentro do homem encontramos todas as formas, todas as eras, tudo quanto já existiu e tudo quanto irá existir. Não é sem motivo que no Templo de Delfos havia um sábio letreiro que assinalava: “Homem, conhece-te a tí mesmo e conhecerás o universo e os Deuses”.

Em vão os homens buscarão tesouros sobre a face da terra, pois enquanto não encontrarem os mistérios e tudo aquilo que buscam, dentro de si mesmos, por mais que tenham fora da unidade múltipla que é o homem, não possuirão coisa alguma.

A Promessa que faz o Cristo de que hoje podemos estar com ele no paraíso é que nos mostra que a chave de tudo isto está exatamente neste sábio manejo do instante presente e no arrependimento. Nós sim podemos hoje estar com o Sagrado Mestre no paraíso se neste exato momento vivemos dentro do que sejam os preceitos e a Ética do relativo a estes estados de consciência superiores. Isto não é uma promessa para algo além da vida, ou para o final dos tempos, é algo que nos assinala para agora, para hoje, para o momento que aqui vivemos.

Necessitamos encontrar tempo neste presente momento para que o Cristo faça parte de nossas vidas, não com palavras ou com atitudes cheias de pose, mas como uma viva expressão Cristã, em nossos atos, em nossos pensamentos, e em nossos sentimentos; e então sim estaremos com ele, hoje, no paraíso.

Não deixemos para amar amanhã, perdoar amanhã, o mundo já está cheio de coisas fascinantes e maravilhosas que só servem para entorpecer nossos sentidos e nos fazer sonhar e fantasiar a cada momento. Estejamos agora, aqui, despertos, lúcidos, dando a cada coisa sua justa interpretação e uma justa atenção para que não estejamos carregando lastros e pesos que não nos correspondem.

Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” – Mateus 11:27-30

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Cadeia de comando

Todas as instâncias que conhecemos dependem de organização, de um ordenamento, o qual seja capaz de sustentar a vida e os processos ligados a ela. A Sustentação da Ordem é crescimento e desenvolvimento e a perda desta organização significa destruição, involução e morte (fim).

Tudo e todos estão em constante transformação, e não significa que um sistema ainda que sendo perfeito, não terá de deixar de existir, até porque a eternidade de um sistema é algo contrário ao sentido da própria vida que é constante transformação, nascimento e morte de todas as coisas inferiores.

Em qualquer que seja a área, qualquer que seja o aspecto de um Sistema, para que este funcione adequadamente, precisamos de uma cadeia de comando, e de uma organização muito objetiva acerca dos trabalhos que cada uma destas instâncias realiza. Seja no aspecto Social, Militar, Político, Religioso, Artístico, Científico, sempre encontraremos diversos postos e diversas instâncias as quais promovem certa Governabilidade daquele aspecto em específico, já que de outra maneira não haveria uma Instituição, um Grupo ou um Governo no aspecto social, ou do que quer que seja.

O Máximo Governante, seja de uma Instituição Religiosa, seja de uma Associação Política, ou seja de um Grupo Cultural ou Governamental, é quem tem a responsabilidade de interligar todos os demais poderes e de ter a visão imparcial das necessidades de todos, já que indiferente da região ou do aspecto, ele governa para todos.

Assim no caso dos Países, o Governo Nacional gerencia o País como um todo, mas há claro os Estados, as Cidades e cada uma tem seu comando próprio o que forma uma Cadeia de Comando e o que provê uma Governabilidade por conta destas sucessivas camadas. Nem sempre o Governante está bem intencionado ou é idôneo em suas ações e claro isto pode fazer com que seja substituído, seja qual for a área que estejamos falando. Afinal mesmo os Impérios desmoronam e nenhuma Monarquia mostra-se eterna como bem vemos.

De qualquer maneira, para que haja uma harmonia entre os poderes, é necessário que haja uma correta administração em cada uma das instâncias que conforma esta Cadeia de Comando, e se por algum motivo não há, é necessário corrigir isto da melhor maneira possível, pois é o principal motivo da ruína de qualquer sistema necessário a vida.

O Sistema sempre é mecanicidade, obviamente. E na Obra precisamos libertar-nos dos sistemas, mas não necessariamente seremos alheios aos mesmos, visto que se vivemos em um País, estamos inseridos no Sistema de Governo, ainda que como “governados”, também fazemos parte da força de trabalho em qualquer ramo que seja, assim estamos inseridos em um sistema de trabalho e dependemos do sistema financeiro, pois por mais que tenhamos independência, temos um registro civil, temos impostos, etc. Assim que, precisamos entender os sistemas, se queremos libertar-nos deles, e esta libertação é psicológica, ativa, não algo fictício no sentido a viver a vida como indigentes.

Imaginemos por um momento a atual humanidade sem um Governo, as ruas sem policiamento, nenhuma lei (humana) regendo as ações das pessoas, nenhum tipo de educação, sem um Sistema Militar para proteger o país em caso de catástrofes ou de invasões, sem saúde, nada… Dentro deste parâmetro, vemos que a Obra que temos de realizar seria algo muito difícil, ainda mais do que é hoje no atual formato que vive a humanidade.

Sabemos e certamente reconhecemos que boa parte dos sistemas existentes são falidos, são completamente ultrapassados e fadados ao mais iminente desastre. A Maior parte dos Sistemas que vemos são a mais absoluta antítese das Leis Divinas e contrariam a cada passo o sentido da própria Vida.

Cedo ou tarde, tudo submerge no caos, ainda que fosse perfeito, toda a sociedade é desmantelada para que retorne mais uma vez a sua origem e então renasça sob uma nova regência, um novo ciclo. Por isto que não podemos identificar-nos ou fazer uma luta sem esforços por aquilo que é inútil… Devemos claro buscar sempre o bem comum, e o melhor para todas as pessoas e demais criaturas, e dentro do campo de atuação que temos, dentro da Vocação e dentro do posto que ocupamos na Vida cotidiana, esgrimir a Consciência e atuar de maneira a sustentar a Vida, a Governabilidade, até que claro as correntes internas ditem outro rumo, outra direção.

Falamos aqui de tudo, não apenas dos Sistemas Humanos, mas dos Sistemas Divinos plasmados em nossa vida cotidiana. Houveram sim Governos Sociais instalados e mantidos pelas Divindades e mesmo Sistemas Religiosos como forma de conduzir os indivíduos à sua regeneração. Mas como sabemos, cada passo que estes Sistemas dão contra o Espírito, contra a realidade Espiritual em constante transformação, mais perto encontram-se de seu fim. E ainda que fossem perfeitos, não seriam eternos, como sabemos, pois tudo tem seu tempo…

Sustentar algo, ou não, depende de sermos capazes de reconhecer estas correntes internas e de integrar-nos com esta Vontade Universal que por vezes integra-se com alguns indivíduos de maneira a moldar a Ordem dos Mundos.

A virtude e a tentação

A Vida, quantos mistérios tem a vida, e quantos incontáveis eventos temos de nos deparar e resolver para que possamos realmente resgatar estes valores íntimos que se encontram aprisionados em diferentes incompreensões, diferentes delitos em nosso interior.

Todos nós certamente apreciamos a calmaria, a tranquilidade, em seu sentido mais ameno e suave que proporciona a vida, mas no fundo estes momentos são os mais inúteis no sentido de modificações e avanços internos, pois estes processos tranquilos não permitem com que logremos desenvolver absolutamente nada, já que por não nos exigir nada, nada ganhamos.

A Grande diferença que existe entre aquilo que chamamos de Vida, que é esta vida comum e corrente que vivemos e aquilo que chamamos Caminho, no sentido de uma Obra Espiritual; é que na Vida nós não fazemos compreensão dos eventos, nem nos opomos ao que é errado, delituoso. Já quando nos integramos com esta fração Divina que em nosso interior levamos e passamos a dar a cada evento sua justa solução, então iniciamos a trilhar o caminho e passamos a ser tentados para que cometamos erros e da negação ao erro, surge, cresce, desenvolve-se a virtude.

Dificuldades, são coisas que vem de duas maneiras, uma como resultado de nossos delitos, quando vivemos a vida; e outra quando trilhamos o caminho e estas dificuldades são exatamente a oposição a esta integração espiritual, as tentações que buscam nos testar naquilo que estamos nos propondo realizar, e ao mesmo tempo vem para nos afastar disto, se falhamos. Ou claro, por outro lado, nos dá o aval concreto para que encarnemos e manifestemos estas preciosas joias que vamos recebendo do Espírito ao passar por estas provações.

Nem todas as pessoas trilham este caminho pela primeira vez, e raros aqueles que realmente se integram com a Obra, o fazem desde o começo. O que queremos dizer, é que nem sempre a vida nos parece justa se tentamos comparar o que vive um e o que vive outro, mas no fundo, as dificuldades, sejam humanas, sejam esotéricas, são o resultado destas particularidades de cada um, seja de seus erros, seja daquilo que o Íntimo de cada um precisa vivenciar e submete sua fração humana para que encarne as diferentes partes do Ser, ou mesmo se equipare mais uma vez a ele, já que quando nascemos não nascemos prontos, no sentido daquilo que já fizemos, senão que recapitulamos diversos processos ao longo da existência até estarmos novamente prontos para seguir em frente, dar continuidade aquilo que começamos em outras épocas, outras eras.

A Natureza constantemente recapitula-se em si mesma, o próprio período fetal que vivemos cada vez que regressamos ao reino humano, é no fundo uma vivência muito realista disto que falamos, afinal nos recorda a própria terra o ventre da mãe, e naturalmente nos desenvolvemos, e mesmo fora deste útero, já não nascemos falantes e atuantes, senão que recapitulamos certos processos e nos adaptamos a realidade atual da época e formamos os veículos necessários a esta expressão a este momento, como sabemos é a Personalidade neste caso, que serve de mediador com a localidade e a época que vivemos. Quando reencontramos o caminho espiritual, de certa maneira ocorre este mesmo processo, somente que esotérico, pois precisamos nos adaptar as palavras, ao método atual, seja para aprender, seja para poder ensinar. As próprias iniciações precisam ser revividas ainda que rapidamente, para que tenhamos mais uma vez estes valores encarnados e manifestos para as realizações que nos corresponde realizar.

Não há como existir virtude, sem tentação, nem tentação sem que haja um potencial, uma semente de virtude. Ninguém que não tenha condições de trilhar o caminho espiritual, pode ser tentado, pois seria um despropósito, uma inutilidade. Também a tentação são as trevas, a noite, e o caos, é o mesmo ventre, de onde se forjam e emanam as virtudes.

Em nossa vida, quando nos propomos a esta superação de nós mesmos, inevitavelmente surgem muitas escolhas delicadas, mesmo extremas, aonde somos tomados ao mesmo tempo por este impulso divino, e ainda assim tentados a outras realizações contrárias a isto e é aonde nos definimos pela Luz ou pelas Trevas, pelo ascenso ou pelo descenso. E ainda que o objetivo seja sempre superar estes obstáculos, inevitavelmente há processos aonde mesmo falhar é inevitável, já que é por vezes a forma de provar o orgulho, ou mesmo a continuidade de propósitos do caminhante, e é aonde muitos não entendem e abandonam o caminho precocemente.

Muitas pessoas reclamam de não ter encontrado a Luz, ou de não terem encarnados os dons e poderes espirituais que entendem lhes corresponde e no fundo temos de afirmar que quanto maior sejam estas trevas, se é que o iniciado está realmente trabalhando e verdadeiramente vencendo estas tentações, maior é sempre a luz, uma vez que teve de passar por isto em trevas. É claro que isto não é como ocorre com todos, porque cada um tem uma natureza distinta, vive processos distintos e isto faz com que de acordo com as missões que tenha, das realizações que lhe corresponda, venha tendo uma luz maior que os demais, uma compreensão e uma visão mais profunda e abrangente, como é natural de ser, já que não trabalha apenas por si mesmo, mas por guiar e ajudar outros em seu trabalho.

Há muitos princípios realmente Divinos hoje encerrados em formas humanas, prontos para desempenhar terríveis papéis em tempos tão difíceis como são estes que vivemos, e inevitavelmente passam por grandes sofrimentos e grandes amarguras e porque não dizer tragédias em suas vidas, exatamente para que consigam lograr vivenciar uma pequena fração de tudo que já viveram ao longo das eras e reincorporar mais uma vez estes Divinos Valores e Dons, os quais tem por direito fazer manifesto por meio de sua Alma, mas que depende da sábia vivência destes distintos processos que se desencadeiam em sua vida.

Elogio. Reconhecimento ou manipulação ??

Não há indivíduo que não tenha vínculos com outras pessoas e dependa em alguma instância destas interações que formam as bases de nossa sociedade. Interação é sempre a chave do mútuo entendimento, e da continuidade daquilo que o indivíduo por ele mesmo é incapaz de prosseguir, seja porque extrapola seu tempo no mundo, seja porque sua mão de obra individual, não é capaz de realizar a totalidade de algo que este se dispõe e assim por diante.

Claro que muitas de nossas interações não tem um propósito lógico, senão algo emocional, ou mesmo instintivo, ou impulsionado por quaisquer das demais bases que se fundamenta um indivíduo qualquer. Em fim, nossas interações tem fundamentos que são perceptíveis e observáveis, mas também tem fundamentos que não são claramente perceptíveis e cujo resultado comumente é obscuro, e difícil de ser entendido, devido a complexidade das possibilidades e da infinidade que existe na psicologia de cada indivíduo.

Tratemos agora de um aspecto muito comum em nosso dia a dia, e que pode em geral se manifestar de duas maneiras, com dois propósitos. Estamos falando do Elogio, que é um louvor, um julgamento favorável, uma concordância com alguém, ou com algum aspecto que exprime alguém. Os Elogios, podemos observar, costumam se manifestar de forma concreta como um Reconhecimento natural e positivo, ou como uma Manipulação.

Quando uma pessoa não concorda com alguém, e induz este alguém a fazer algo que espera deste, e então elogia esta mudança, seja postural, de vestimenta, de atitude, de palavreado, isto obviamente é o resultado de uma tentativa de manipular, de conduzir o outro dentro de um plano que se tem para este.  Por mais que tenhamos uma boa intenção em realizar propositalmente “melhorias” nos demais indivíduos, esta guiatura forçada, manipulativa, tem sempre por resultado o fracasso, já que se fundamenta em algo artificial, negativo.

Isto desta manipulação que aqui relatamos, é algo muito comum e muito naturalmente utilizado por todas as pessoas, para conseguirem o que almejam, seja a nível familiar, profissional, e demais esferas da vida comum. Há elogios, que se fundamentam no objetivo de manipular a proximidade que tem-se com outra pessoa, gerando uma falsa proximidade, ao fingir-se o interesse em algo que não tem, ou em concordar com algo que no fundo não concorda.

É muito difícil vermos nos dias atuais um Elogio Sincero, sem que por detrás deste, haja alguma segunda intenção, consciente ou inconsciente. Isto que aqui nos referimos ao Elogio, como manipulação, é um importante detalhe de nossa vida cotidiana, já que não se aplica unicamente a este, senão que a diversas interações que temos, as quais estão fundamentadas em falsas e negativas bases.

Todo este falso interesse, esta falsa aprovação, esta falsa proximidade com o outro, acaba gerando uma série de danosas consequências não apenas em nossas vidas, mas em todo o universo. Um falso interesse, seja com o objetivo que for, gera uma falsa proximidade com alguém, que pode gerar um falso relacionamento, como uma falsa amizade, ou muitas vezes um matrimônio fracassado, ou mesmo um empreendimento frustrado. Isto gera uma série de ondulações no destino, pois compromete alguém com algo que não lhe corresponde, pois foi enganado. Assim uma outra terceira pessoa que estaria destinada a interagir com esta segunda, não consegue, pois este primeiro fingiu ser o que não era, e demonstrou um interesse que não correspondia.

Quando olhamos as tragédias que ocorrem na vida das pessoas, nos conflitos Familiares, nos problemas Profissionais, ou mesmo nas graves crises sociais, encontramos que o fundamento destes problemas estão no fato de que as pessoas erradas assumem postos que não lhes correspondem. E uma das ferramentas que estes infelizes utilizam, para galgarem tais postos, é exatamente esta manipulação por meio do Elogio, e demais astúcias similares.

Não há benefício que justifique o crime da mentira, e a falta de sinceridade nas interações. A Verdade, a sinceridade, são os princípios capazes de nos unir com aqueles que nos correspondem termos contato, também são os meios para chegarmos até aonde devemos chegar, seja Profissionalmente ou seja em qualquer esfera Social que nos corresponda estar.

Entre Deus e o mundo

Era com admiração que me recordava diligentemente do longo tempo decorrido desde meus dezoito anos, quando comecei a arder no desejo da sabedoria, propondo-me, quando a achasse, abandonar todas as vãs esperanças e enganosas loucuras passionais. Chegado, porém aos trinta anos, ainda continuava preso ao mesmo lodaçal, ávido em usufruir dos bens presentes, que me fugiam e me dissipavam.  Entretanto, dizia: amanhã hei de encontrá-la; a verdade aparecerá clara, e a abraçarei. Faustosa virá, e me dará todas as explicações. Ó grandes varões da Academia: é verdade que não podemos compreender nenhuma coisa com certeza para a conduto de nossa vida? Mas não! Procuremos com mais diligencia, sem desesperarmos. Já não me parecem absurdas nas Escrituras as coisas que antes me pareciam tais: posso compreende-las de modo diferente, mais razoável. Fixarei, pois, os pés naquele degrau em que me colocaram meus pais quando criança, até que encontres a verdade em sua evidência. Mas onde e quando busca-la? Me falta tempo para ler. E além do mais, onde encontrar os livros? E onde ou quando poderei compra-los? A quem hei de pedi-los? Repartamos o tempo, reservemos algumas horas para a salvação da alma. Nasceu uma grande esperança: a fé dogmática não ensina o que pensamos, e eu a criticava levianamente. Seus doutores tem como crime limitar Deus a figura humana; e eu ainda hesito em bater para que nos sejam reveladas as outras verdades! As horas da manhã eu dedico aos alunos; mas que faço das outras? Por que não as consagro a essa busca? Mas quando então, visitar os amigos poderosos, de cujos favores necessito? Quando preparar as lições que os alunos me pagam? Quando reparar as forças do espírito,  descansando em algo aprazível? Perca-se tudo! Deixemos essas coisas vãs e faceis. Entreguemo-nos por completo a busca da verdade. A vida é miserável, e a hora da morte, incerta. Se esta me surpreender de  repente, em que estado sairei do mundo? E onde aprenderei o que deixei de aprender aqui? Não serei antes castigado por essa negligência? Mas, e se a própria morte cortar e for o fim a todo cuidado e sentimento? Também seria conveniente investigar este ponto. Mas afastemos tais pensamentos! Não é por acaso nem é em vão que se difunde por todo o mundo a fé cristã, com grande prestigio. Deus jamais teria criado tantas e tais coisas por nós, se com a morte do corpo terminasse também a vida da alma. Porque hesitar, pois, em abandonar as esperanças do mundo para me consagrar a busca de Deus e da bem-aventurança? Mas espere um pouco! Os bens mundanos também tem seus deleites, que não são pequenos. Não devo deixá-los sem pensar; seria feio ter de voltar a eles. Eis-me prestes a conseguir um  cargo de honra. Que mais posso desejar? Tenho uma multidão de amigos poderosos. Sem me apressar muito poderia obter, no mínimo, uma liderança. Poderia então casar-me com uma mulher formosa e de fortuna, para que meus gastos não fossem muito pesados. Aqui estariam os limites de meus desejos. Muitos homens grandes e dignos de imitação, apesar de casados, dedicaram-se ao estudo da sabedoria. Enquanto assim pensava, e os ventos cambiantes impeliam meu coração de um lado para outro, o tempo passava, e eu retardava minha conversão ao Senhor. Adiava de dia para dia o viver em ti, morrendo, todavia, todos os dias em mim mesmo. Amando a vida feliz, temia busca-la em sua morada; procurava-a fugindo dela! Pensava que seria mui desgraçado se me visse privado das caricias da mulher. Não pensava ainda no remédio de tua misericórdia, que cura esta enfermidade, porque nunca o havia experimentado. Julgava que a continência fosse obra de nossa própria força, que eu pensava não ter. Eu era bastante néscio para ignorar que ninguém, como esta escrito, é casto sem que tu lhes de a força. Essa força certamente me darias se eu ferisse teus ouvidos com os gemidos de minha alma, e com fé firme lançasse em ti meus cuidados.